13- 14 - O limen é a soleiraa, que o deus Limentinus guarda, o passo através do qual se penetra em um domínio ou se sai dele. Através da soleira, somos ao acolhidos ou e-liminados. Ela pode se dirigir "centro", ou abrir para o o-limite, para aquilo que não possui forma ou medida, "onde" fatalmente nos perderíamos.
14-15 - Necessária se torna a busca por um lugar onde poder permanecer, que um limes possa custodiar. Nós construímos - edificamos para corresponder a essa necessidade. Nenhum "normadismo" pode reduzi-la ao silêncio: os nômades levam consigo o próprio lugar, que é o tapete, na riqueza de seu simbolismo. Eles entram no tapete como nós entramos (entrávamos?) em casa.
15 - "Todos de fato acreditam que as coisas que são sejam em algum onde (pou)" [...]
16 - Mas como conceber aquele contato entre eschata? Seria possível entendê-la como uma linha imóvel? Já se viu como não se sustenta a comparação com o vaso. Os entes não definem o próprio confim chocando-se contra ele, abstratamente separados por eles. Cada ente é certamente fechado em um seu limite, mas é no seu movimento que esse limite, esse extremo ou último do ente toca outras extremidades. O continente não é outro que o eschaton do outro corpo. Passo a passo o lugar se define no con-fim do contato entre os corpos, onde cada um é, ao mesmo tempo, conteúdo e continente, limitante e limitado. Topos aparece, então, como um outro nome para dizer o limite extremo do ente, o ponto ou a linha onde ele entra em relação com o outro de si, onde ele "se oferece" integralmente ao contato com o outro.
16 - O confim é a essência do lugar. O lugar é onde a coisa faz experiência do próprio limes, da linha que a contém, mas que ao mesmo tempo, contendo-a, coloca em relação. O lugar é onde a coisa "torna-se" contato e relação. Mais uma vez, a linguagem sabe "pensar" esse problema.
17 - Lugar é "onde" o lugar termina, e o lugar seu fim onde os entes que contém chegaram aos seus limites, se apresentaram segundo as suas figuras extremas. Puma coisa que por isso, o confim não delimita um lugar pelo externo, como alguma coisa que contém os entes (como um continente, ou seja, um vaso); o confim constitui o lugar.
17 - Se o lugar envolvesse a própria soleira, murasse o seu confinium, e então não soubesse reconhecer no outro o con-finis, o que é próximo confinando, o ad-finis, o lugar não seria mais lugar. Eliminando o confim-contato, elimina-se o lugar.
18 - Por isso, quanto mais nítida se desenha a linha de contato, o confim, quanto mais ele é soleira, é limen. Nenhum corpo pode transgredir o próprio limite, sair de si, mas é o confim a fugir de toda rígida determinação, o contato para recusar todo significado unívoco. Não são os corpos a transgredir, mas é o próprio confim que sempre transgride. A transgressão é o modo de ser do confim, já que o confim implica polemos entre os diferentes (segundo todas as possíveis acepções de polemos) - mas o confim sempre se determinará novamente, exatamente porque os corpos não podem ultrapassar o próprio eschaton. O confim não é transgredível, pois é a transgressão.
18 - Situação difícil e paradoxal: não temos outra maneira para corresponder à necessidade original de habitar um lugar próprio, que concebê-lo ao limite, como confim. E o confim é através do que se produzem relações e conflitos, através dele o lugar é constantemente colocado em perigo, ou seja, recolocado no caminho. Fixar o lugar procurando fechar-lhe o confim não curará nosso habitar do perigo, não constituirá nenhum seguro ethos, mas exatamente o contrário. Fechar o lugar não é, de fato, protegê-lo ou defendê-lo, mas anulá-lo significa violentar-lhe a natureza e o próprio étimo, não reconhecê-los. Todas as tentativas voltadas a "fortificar" o lugar, longe de torná-lo seguro, golpearão mortalmente todo habitar, já que um lugar que define por exclusão de outro, que não quer que o outro o toque, que exige o seu confim, imune ao outro, se transforma inevitavelmente em prisão para aqueles que ali residem.
Fonte: Revista de Letras, São Paulo, 45 (1): 13-22, 2005
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