[...] a Bíblia tem esse caráter sagrado porque revela o rosto do Deus da vida que se manifesta na história nas lutas em favor da vida com dignidade e justiça para todos, principalmente para as pessoas emprobrecidas e marginalizadas. É na defesa e na promoção da vida queA a Bíblia ganha caráter sagrado e torna-se Palavra de Deus.
[...] o Antigo ou Primeiro Testamento revela predominantemente as formas que recebeu no período pós-exílio (+ 400 a.C. até 200 d.C.) no processo em que se constituía o JudaísmElh. E o Novo ou Segundo Testamento mostra o rosto que recebeu após a definição do cânone cristão, entre os anos 100 e 400 d.C.
A história da Bíblia começa com a história do povo de Israel, por volta do ano 1.300 antes do nascimento de Jesus Cristo, mais de 3.300 anos atrás na terra de Canaã.
Os grupos urbanos e as aldeias camponesas das montanhas e do sul de Judá possuíam praticamente a mesma cultura: eram cananeus, e os seus Deuses e Deusas eram as divindades do panteão cananeu: El, Elohim, Asherá, Baal, Astarte, Anat, entre outros. No entanto a vertente urbana da religião estava associada ao sistema de poder, e funcionava como uma religião oficial. [...] Somente os reis e faraós eram considerados filhos de Deus (Cf. Sl 82-6-7)
Entre as aldeias camponesas nas montanhas, o culto aos Deuses e às Deusas estava vinculado aos diversos aspectos fundamentais da vida, como ter filhos, fertilidade dos campos e dos animais, saúde, amor, proteção, a veneração aos antepassados mortos, etc.
A crise dos centros urbanos a partir de 1200 a.C. causada por vários fatores, entre os quais a invasão dos "povos do mar", e o processo de resistência ao sistema de dominação das cidades-estado faz com que grupos de pastores, camponeses e gente marginalizada (hapirus) de Canaã, e pessoas escravizadas no Egito encontrem nessas aldeias e possibilidades de viverem longe da dura opressão imposta a eles pelos reis cananeus e pelo Faraó.
Este é o núcleo inicial de Israel que forma-se nas montanhas centrais da Palestina. Nesse processo algum grupo deve ter trazido o culto a Javé para dentro das aldeias e tribos de Israel. Javé parece ser uma divindade que veio de fora de Canaã (Ex 2,16; 3,1-2; Dt 33,2; Jz 5,4; Hab 3,3. Javé será integrado ao panteão das tribos e aldeias camponesas possivelmente como o Deus dos guerreiros e da guerra. (Cf. Ex 15,2-3; 14,14, 24-25;27; Jz 4,14-15; Sm 4,1-11; 17,14)
Nesse núcleo inicial das tribos de Israel, formadas por gentes de diversas origens, as relações são estabelecidas a partir da luta contra a opressão e pela liberdade e da experiência das divindades como presença libertadora, como força aliada nessa luta.
São as histórias contadas por esses pastores, hebreus, escravos e camponeses que constituem as tradições mais antigas que darão origem à Bíblia. São elas que formam a base do livro do Gênesis e o cerne mais profundo do livro do Êxodo.
Partindo de sua experiência de gente oprimida, e de modo coerente com a vertente da religião camponesa, que cultuava as divindades na defesa da vida, evitando relações de dominação e de exploração, importantes setores tribais defendiam a organização das tribos em torno do uso compartilhado da terra e do exercício de poder, com vista a impedir a concentração de poder, de terras e de riquezas.
Por uns duzentos anos, entre 1250-1050 a. C., Israel será um conjunto de tribos autônomas e independentes umas das outras, nas quais as associações de famílias viviam mais ou menos solidariamente, procurando evitar o acúmulo de riqueza e a centralização do poder. É esta sociedade que forma o pano de fundo do livro dos Juízes e do início de 1 Samuel. E é esta sociedade que os profestas estão se referindo quando falam em Reino ou Reinado de Deus.
A defesa da vida e do povo oprimido é a casa simples, mas forte, que dá origem a tudo. Ela é, portanto, o fundamento, o coração e a raiz mais sagrada de toda a Bíblia. É assim que surge Israel e é também aqui que começa a história da Bíblia.
Mas nos cem anos seguintes, entre 1050-950 a.C., [...] líderes políticos, guerreiros e sacerdotes seduzidos pelos apelos do comércio esboçaram tentativas de acumulação de riquezas e poder (Jz 8,24-26; 9,1-4; 10-3-4; 1Sm 2,12-16)
Desse modo criam-e as condições para [...] uma elite que concentra poder econômico, político e militar e institui a monarquia (1Sm 9,1; 11,5-7; 25,2).
Esse processo começou timidamente com Saul (+ ou - 1050 a.C.) e consolidou-se com Davi e Salomão (entre 1000 a 930 a.C.)
E para compreender a Bíblia é fundamental saber que a monarquia, apesar de ser sinal efetivo da subjugação das vilas camponesas pelos "centros urbanos" e inspirar-se nos sistemas fenício-cananeu (1Rs 5,15-32) e egípcio (1Rs 3,1), será instituída em nome de Javé, o Deus libertador dos escravos camponeses.
Sobre os fundamentos sagrados da casa da defesa da vida do povo são erguidos palácios e templos que defendem os interesses do rei e dos dominantes.
É a teologia a Javé que defende a vida dos camponeses e camponesas, outra, a teologia difundida na vertente da religião ligada ao poder, nos cultos oficiais do Javé patrocinador da monarquia e do Templo de Jerusalém, elaborada por sacerdotes, escribas e profetas a serviço do rei.
A consolidação da monarquia demorou mais ou menos 100 anos. Esse tempo indica que houve muita resistência. [...] resistência manifesta fortemente já no final da vida de Salomão. [...] e por volta de 930 a.C., formam o reino de Israel independente de Judá (1Rs 12,18).
[...] é somente na monarquia, principalmente com Davi e Salomão (por volta de 1.000 a.C.), que começarão a ser escritos textos que farão parte da Bíblia. Neles, a teologia que defende a vida do povo trabalhador está entrelaçada com a teologia que defende os interesses dos poderosos, os palácios, templos e seus rituais.
[...] o monoteísmo foi adotado em Judá somente no período pós-exílio, em uma das reformas mais recentes pelas quais passou a fé de Israel.
[...] Israel vem de dentro da sociedade cananéia e traz muitos elementos culturais e religiosos dessa raiz.
Cada dinastia que chegava ao poder tinha seu Deus oficial.
Entre os anos 700 e 600 a.C., deu-se um movimento que visava unir as tribos do norte com as do sul, sob o comando da dinastia de Davi instalada em Judá.
Os reis Ezequias e, principalmente Josias, são so expoentes desse movimento. [...] no tempo de Josias, a redação principal da história de Israel que se encontra nos livros de Deuteronômio, Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, e 1 e 2 Reis.
[...] a perspectiva monolátrica dessa reforma muitas impede a compreensão da diversidade existente na origem de Israel [...] A teologia dos reis, dos palácios, dos templos e do poder pode ser forte e envolvente, mas não é a única. O caráter sagrado da Bíblia vem da defesa da vida dos pobres e do emprenho por uma sociedade justa e solidária.
[...] após rebelar-se contra a Babilônia, Judá será novamente invadida [...] Os latifúndios dos poderosos que foram exilados foram divididos e entregues a esses pobres deixados em Judá para serem vinhateiros e agricultores. [...] esses camponeses pobres viveram um experiência semelhante àquela do período anterior à monarquia. [...] tiveram condições também de resgatar suas antigas tradições teológicas e espirituais.
Tanto a invasão da Assíria (732 a.C.) e a destruição de Samaria, capital de Israel (722 a.C.), quanto a destruição de Jerusalém, capital de Judá (598 - 587 a.C), respectivos centros do poder de Israel e Judá, provocavam a desarticulação das classes dominantes e possibilitaram o afloramento de teologias marginalizadas pela teologia oficial. [...] A teologia oficial, a espiritualidade e a proposta de organização social defendida pelos movimentos proféticos somente conquistarão espaço e maior importância na sociedade após a derrota da classe dominante e das estruturas de dominação. É nesse momento que as palavras dos profetas, mantidas e atualizadas nas famílias e organizações camponesas, será fixada em textos e ocupará espaço, ao lado dos textos oficiais do povo de Israel.
Os escritos proféticos não teriam chegado até nós, se dependêssemos dos reis e dos sacerdotes oficiais, que fizeram de tudo par tentar calar estas vozes [...]
Uma parte da elite dominante de Jerusalém levada para o exílio na Babilônia foi integrada na corte do império. Outros porém, foram colocados para trabalhar em colônias agrícolas para os babilônios.
Será que isso não era um indicativo de que os deuses da Babilônia eram mais fortes do que o Deus de Javé?
Mas a partir do exílio, o sábado passará a ser santificado como um dia de descanso instituído por Deus.
No espaço conquistado com o sábado, outros aspectos também serão relidos, visando reforçar a identidade judaica dos exilados e rejeitar sua absorção pela religião e pela cultura do império opressor. A circuncisão passará a ser obrigatória [...] a pureza da sua árvore genealógica.
[...] a partir de 530 a.C. , quando o rei Ciro da Pérsia irá derrotar o império Babilônico e libertar os exilados. [...] Os exilados irão se organizar em torno do novo Templo e, a partir dele, começarão a impor nova concepção de Deus, do povo de Deus e do pecado. Javé será agora considerado como Deus único (Dt 4,39; 1Rs 8,60)
É nesse processo, aliás, que receberá a forma em que se encontra hoje em nossas Bíblias o Pentatêuco (os livros de Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Serão promulgados como livros sagrados pelas autoridades do segundo Templo e impostos com lei de Deus, com o apoio dos persas. Esd 7,25-26)
Após o fim do domínio persa, com a vitória de Alexandre, o Grande, em 333 a.C., [...] os escritos dos Profetas serão colocados ao lado do Pentatêuco e também considerados como sagrados. Junto com a resistência armada, começa a surgir também nesta época a Apocalíptica, uma corrente política, teológica e espiritual de resistência à dominação imperial. A apocalíptica dará luz a uma vasta produção literária, porém a maioria de seus escritos não entrará nos cânones bíblicos. Deles temos no Antigo Testamento o livro de Daniel e no Novo Testamento o Apocalipse de João.
Pouco mais tarde o livro dos Salmos e os demais livros Sapienciais (Provérbios, Lamentações, Eclesiastes, Ester) também alcançarão o status de livros sagrados completando-se dessa forma o cânon bíblico do Antigo Testamento.
Por volta dos anos 280 a.C. iniciou-se um processo de tradução dos livros bíblicos escritos em hebraico para a língua grega. A Bíblia grega ficou conhecida como Septuaginta, ou Bíblia dos setenta, LXX ) porque uma lenda conta que ela havida sido escrita por setenta sábios judeus. Nesse processo, foram incorporados novos livros, sete deles foram incluídos na Vulgata, o cânon oficial da Bíblia católica: Judite, Tobias, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc. São considerados dêuto-canônicos e não constam das Bíblias evangélicas. Outros livros, considerados apócrifos, não se encontram nas Bíblias católicas e nem nas evangélicas, mas foram escritos aceitos pelas Igrejas Cristãs Ortodoxas: 1 Esdras, 3 e 4 Macabeus.
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