Aceitemos morrer como gente que já não somos. Deixai que morra o
animal em que esta guerra nos converteu.
O feiticeiro se calou, extenuado. A sarapilheira estava ensopada
de suor. Voltando a levantar o cajado sobre a cabeça ele ainda voltou a falar.
Mas se pronunciou em palavras de nenhuma língua. As gentes seguiam o restante
discurso à cata de alguma compreensão. Então, o nganga se calou, ergueu uma
cabaça e verteu um líquido sobre os ombros. Depois, desceu o morro e fez pingar
a cabaça sobre cada um dos presentes. Então se deu o mais extraordinário dos
fenómenos e todos os presentes tombaram no chão, agitando-se em espasmos e
berros, e se seguiu uma orgia de convulsões, babas e espumas e, um por um,
todos foram perdendo as humanas dimensões. Penugens e escamas, garras e bicos,
caudas e cristas se espalharam pelos corpos e todo aquele plenário de gente se
transfigurou em
bicharada. A fala foi a última coisa a ser convertida e,
durante um tempo, se escutaram espantos e gritos humanos proferidos pelas mais
irracionais bestas. Aos poucos, porém, também o verbo se perdeu e a bicharada,
em desordem, se espalhou pelos matos.
Tombado de joelhos perante tais visões, eu olhei as próprias mãos
para me confirmar humano. Retirei as vestes e apalpei minhas velhas formas. Com
cautela, tossiquei para me certificar da voz. A medo fui emitindo palavras
simples, depois frases sem nexo. Não havia dúvida: eu me mantinha completamente
gente, habitando o corpo que sempre fora o meu.
Então, por entre as brumas do sonhado, vi um galo se aproximando.
Era Junhito, quase eu ia jurar. Porque no inverso dos outros, ele se
humanizava, lhe caíam penas, cristas e esporões. Me olhou ainda semibicho. Seus
olhos me pediam qualquer coisa, nem eu adivinhava. Que ajuda lhe podia dar, eu,
simples sonhador? O que sucedeu, seguidamente, foi que surgiram o colono Romão
Pinto junto com o administrador Estêvão, Shetani, Assane, Antoninho e
milicianos. Vinham armados e se dirigiram para Junhito, com ganas de lhe
depenar o pescoço. Cercaram o manito, dizendo:
- Teu pai tinha razão: sempre te viemos buscar.
Então, Junhito me chamou. Eu me olhei, sem confiança. Mas o que em
mim vi foi de dar surpresa, mesmo em sonho: porque em meus braços se exibiam
lenços e enfeites. Minhas mãos seguravam uma zagaia. Me certifiquei: eu era um
naparama! Ao me verem, em minha nova figura, aqueles que maltratavam o meu
Irmão se extinguiram num fechar de olhos. Mas Junhito ainda lutava para se
desbichar, desembaraçar-se da condenação.
Me veio à ideia que ele precisava de um pouco de infância e cantei
os embalos de nossa mãe, sua última ponte com a família. Enquanto eu cantava
ele se foi vertendo todo gente, completamente Junhito. A seu lado, como se
chamada por meu canto, minha mãe apareceu segurando uma criança em seu colo.
Lhes chamei mas eles nem me pareciam ouvir. Junhito colocou a mão aberta sobre
o peito e depois fechou as duas mãos em concha. Me agradecia. Acenei uma despedida e ele,
segurando minha mãe pelo braço, desapareceu nas infinitas folhagens.
Eu sentia que a noite chegava ao fim. Qualquer coisa me dizia que
me devia apressar antes que aquele sonho se extinguisse. Porque me surgiam
agora alucinadas visões de uma estrada por onde eu seguia. Mas aquela era uma
muito estranha picada: não estava imóvel, esperando a viagem dos homens.
Ela se deslocava, seguindo de paisagem em paisagem. A estrada me
descaminhou. O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego? Fui
sendo levado sem conta nem tempo. Até que meu coração se apertou em sombrio
sobressalto. Me surgiu um machimbombo queimado. Estava derreado numa berma, a
dianteira espalmada de encontro a uma árvore. De repente, a cabeça me estala em
surdo baque. Parecia que o mundo inteiro rebentava, fios de sangue se
desalinhavam num fundo de luz muitíssimo branca. Vacilo, vencido por súbito desfalecimento.
Me apetece deitar, me anichar na terra morna. Deixo cair ali a
mala onde trago os cadernos. Uma voz interior me pede para que não pare. É a
voz de meu pai que me dá força. Venço o torpor e prossigo ao longo da estrada.
Mais adiante segue um miúdo com passo lento. Nas suas mãos estão papéis que me
parecem familiares. Me aproximo e, com sobressalto, confirmo: são os meus
cadernos. Então, com o peito sufocado, chamo: Gaspar! E o menino estremece como
se nascesse por uma segunda vez. De sua mão tombam os cadernos. Movidas por um
vento que nascia não do ar mas do próprio chão, as folhas se espalham pela
estrada.
Então, as letras, uma por uma, se vão convertendo em grãos de
areia e, aos poucos, todos meus escritos se vão transformando em páginas de terra.
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