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sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 68]


Último caderno de Kindzu - As páginas da terra


Depois de Euzinha já nenhuma esperança me restava. Eu voltava a Matimati sem Quintino. Perdida estava a amizade. Voltava sem trazer Gaspar. Perdido estava o amor. Farida não aceitaria a minha falta de promessa. E ela se afastaria de mim, partiria para inalcançável longe.
Subi a escura rua da vila em direcção à casa de Assane. Antoninho me recebeu às arrecuas como se visse um fantasma fora do prazo. Tinha os braços envoltos em ligaduras. Assane chegou à porta se arrastando na cadeira e, virando-se para o ajudante, perguntou:
- Já lhe deu a novidade?
- Que se passa? Que aconteceu com Farida?
Assane se moveu em minha direcção. Subiu-se na cadeira, esforçado para me dar um conforto, seu braço me laçando o ombro.
- Não vale a pena você voltar lá.
- Não vale a pena?
- Fanda já não te espera
- Como: vieram-lhe buscar?
- De certa maneira...
- Como de certa maneira?
- Se acalma, Kindzu. Lhe vamos contar.

Se passara de maneira confusa. Por ordem de Assane, Antoninho se metera numa canoa e se dirigira ao barco naufragado. Quando encontrou Farida ele se exclamou. A mulher estava uma rodilha, só quase se lhe viam os olhos. O enviado se chegou com modos sossegados e se apresentou em sua função de amizade. Farida quis saber novidades de Kindzu. Disse que a demora já era demasiada. A procura do filho não iria resultar. A terra é imensa, a guerra é maior ainda.
- Nunca lhe hão-de encontrar!
Então, com determinação, ela disse: não posso adiar mais. Vês aquele farol, apontou ela por entre o poente. Tenho que fazer com que aquele farol funcione. Antoninho se dispôs a ajudar.
Ela anunciou: iria lá acender aquelas luzes, reparar a escuridão. Aquelas luzes haveriam de guiar navios que a viriam tirar dali. O outro ficaria no navio naufragado vigiando se alguém chegava. Farida partiu na embarcação de Antoninho. Ele ainda a viu chegar ao pequeno ilhéu e entrar no farol. Ficou lá um tempo, saiu, voltou a entrar, carregando uns velhos bidões. De repente, a torre se sacudiu em imensa explosão. Labaredas escaparam como sôfregas línguas do edifício. Toda a ilha ficou ardendo.
- Não é possível, Farida não morreu! Eu vou lá a esse farol, amanhã mesmo...
- Não vale a pena, Antoninho confirmou.
- Não confio neste sacana. Se calhar foi ele mesmo quem tramou a morte dela...
Virei costas e me retirei, brusco, corredor afora. Dentro do quarto de Surendra fiquei em espanto. Não chorava. Mas um tremendo cansaço me sufocava o peito. Assane entrou no quarto, suas rodas chiaram no escuro.
- Kindzu, você foi injusto com esse miúdo.
- Com Antoninho? Eu lhe conheço muito bem.
- Mas, desta vez, se enganou. Eu posso testemunhar quanto o moço sofreu.
Assane me garantia. Antoninho tinha ido, em outro pequeno bote, tentar ajudar a mulher que eu amava. Entrara no incêndio com desprezo de sua própria vida. Seus braços arderam como tochas, quase os perdera para sempre.
- Antoninho, agora, lhe respeita. Acredite, Kindzu.
A tristeza me enchia tanto que eu deitei de parte a desconfiança. Admiti ter errado. Sem convicção pedi a Assane que me desculpasse perante Antoninho.
- Assane, eu preciso sair daqui.
- Calha bem, meu amigo. Amanhã mesmo sai o primeiro machimbombo de nossa empresa.
Fingi nem reparar. Nossa empresa? Então, o negócio já se expandira? Afinal, em guerra se pode prosperar mais rápido que em normais tempos de paz. Levantei outra, mais leve, dúvida:
- Já se pode circular na estrada?
- Não temos certeza. Vamos tentar.
- Está certo. Amanhã eu embarco nesse machimbombo. Me deixe agora, estou de mais cansado.
Eu queria ficar absolutamente só. Sentia na versão de Assane um sabor de falso. O paralítico estava agora unido com o administrador, lhe prestaria serviço apenas para encomendar simpatias. A morte de Farida seria um desses serviços. Antoninho seria um perfeito servente.
Durante toda a noite dormi um sonho, com sabores de autêntico.
Enquanto adormecia mil perguntas me continuavam a agitar. E se não tivessem assassinado Farida, através da mão suja de Antoninho? Se o moço se tivesse realmente arriscado para a salvar? Nunca mais eu saberia o certo. No dia seguinte eu estaria de retorno à minha aldeia. Há quanto tempo eu tinha saído? O que acontecera, entretanto, a minha mãe, gr vida de um impossível filho? E junhito: ser que cocoricava ainda pelos prados?
Agora era como se esses fantasmas trabalhassem em minha cabeça para me transmitirem seus segredos, revelações de um outro mundo. Vou relatar o último sonho a ver se me livro do peso de terríveis lembranças. Não quero que tais pensamentos me regressem. Preciso dormir, totalmente dormir, me emigrar deste corpo cheio de esperas e sofrências. Preciso descansar de suspeitas, esfriar meu desejo de vingança. Amanhã apanho o autocarro para regressar a minha aldeia. Não quero lembrar nada, nem Farida, nem Carolinda, nem Quintino, nem ninguém. O que queria mesmo era ir mar adentro, como Assma, empurrado num barquinho sem destino. Ou fazer como minha mãe me ensinou: ser a mais delicada sombra. É isso que desejo: me apagar, perder voz, desexistir. Ainda bem que escrevi, passo por passo, esta minha viagem. Assim escritas estas lembranças ficam presas no papel, bem longe de mim. Este é o último caderno. Depois, arrumo tudo na mala que me deu Surendra. No final, Surendra é o único de quem eu aceito companhia. O indiano mais sua nação sonhada: o oceano sem nenhum fim.
 Me falta, pois, trazer o que essa noite viajou em minha cabeça. Me falta soltar o último peso que me impede ser sombra. Ponho o sonho, em sua selvagem desordem: eu estava descendo um vale molhado de tanta de luz, cheio de manhã. Aquela parecia a primeira madrugada do mundo. A luz se espantava de sua própria estreia, experimentando sua grandeza ao iluminar as mais pequenas coisas. As cores, de tanto serem novas, se cambiavam incessantemente. Foi então que vi avançar um enorme grupo de pessoas, pobres, embrulhadas em cascas e fiapos. Eram centenas de centenas. Foram-me enchendo o sono.
À frente seguia o feiticeiro da minha aldeia. Envergava uma sarapilheira encardida, cujos farrapos poeiravam pelo chão. O adivinho olhou a terra como se dele dependesse o destino do universo. Pesava nos seus olhos a gravíssima decisão de criar um outro dia.
- É aqui mesmo!, disse.
Escolhia o caminho parecendo procurar o centro de uma invisível paisagem. Atrás dele se arrastava a multidão, rastejando como se suas vidas se alimentassem das pegadas de seu guia. O feiticeiro subiu a um morro de muchém (Muchém: térmites) e contemplou a planície. Ajeitou o chapéu feito de penas e enroscou melhor a sarapilheira como se aquele calor lhe esfriasse os ossos. Então, levantando o seu cajado sentenciou:
- Que morram as estradas, se apaguem os caminhos e desabem as pontes!
Depois, começou o discurso, desfiando palavras lentas, rasgando a voz de encontro ao vento:
- Chorais pelos dias de hoje? Pois saibam que os dias que virão serão ainda piores. Foi por isso que fizeram esta guerra, para envenenar o ventre do tempo, para que o presente parisse monstros no lugar da esperança. Não mais procureis vossos familiares que saíram para outras terras em busca da paz. Mesmo que os reencontreis eles não vos reconhecerão. Vós vos convertêsseis em bichos, sem família, sem nação. Porque esta guerra não foi feita para vos tirar do país mas para tirar o país de dentro de vós. Agora, a arma é a vossa única alma. Roubaram-vos tanto que nem sequer os sonhos são vossos, nada de vossa terra vos pertence, e até o céu e o mar serão propriedade de estranhos. Ser mil vezes pior que o passado pois não vereis o rosto dos novos donos e esses patrões se servirão de vossos Irmãos para vos dar castigo. Ao invés de combaterem os inimigos, os melhores guerreiros afiarão as lanças nos ventres das suas próprias mulheres. E aqueles que vos deveriam comandar estarão entretidos a regatear migalhas no banquete da vossa própria destruição. E até os miseráveis serão donos do vosso medo pois vivereis no reino da brutalidade. Terão que esperar que os assassinos sejam mortos por suas próprias mãos pois em todos haver medo da justiça. A terra se revolver e os enterrados assomarão à superfície para virem buscar as orelhas que lhes foram decepadas. Outros procurarão seus narizes no vómito das hienas e escavarão nas lixeiras para resgatarem seus antigos órgãos. E há-de vir um vento que arrastar os astros pelos céus e a noite se tornar pequena para tantas luzes explodindo sobre as vossas cabeças. As areias se voltearão em remoinhos furiosos pelos ares e os pássaros tombarão extenuados e ocorrerão desastres que não têm nome, as machambas serão convertidas em cemitérios e das plantas, secas e mirradas, brotarão apenas pedras de sal. As mulheres mastigarão areia e serão tantas e tão esfaimadas que um buraco imenso tornar a terra oca e desventrada.
No final, porém, restar uma manhã como esta, cheia de luz nova e se escutar uma voz longínqua como se fosse uma memória de antes de sermos gente. E surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da primeira mãe. Esse canto, sim, ser nosso, a lembrança de uma raiz profunda que não juram capazes de nos arrancar. Essa voz nos dar a força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o ingénuo entusiasmo dos namorados. Tudo isso se fará se formos capazes de nos despirmos deste tempo que nos fez animais.

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