O miúdo entorta o nariz, decidido a desobedecer. Não queria que o
animal escapasse. Procura nas redondezas um ramo à altura de receber um nó.
Então se admira: aquela árvore, um djambalaueiro, estava ali no dia anterior?
Não, não estava. Como podia ter-lhe escapado a presença de tão distinta árvore?
E onde estava a palmeira pequena que, na véspera, dava graça aos arredores do
machimbombo? Desaparecera! A única árvore que permanecia em seu lugar era o embondeiro,
suportando a testa do machimbombo. Seria coisa de crer aquelas mudanças na
paisagem? Muidinga hesita em consultar Tuahir. Ele haveria de desdenhar com
aquele riso de peixe, a boca à espera de entender a graça. Decerto, lhe
acusaria de tontice. Ou ainda pior: lhe lembraria a doença em que se havia
exilado não da vida mas da humana meninice. Assim, Muidinga optou por deixar o
assunto.
Se despede do cabrito e torneia a árvore de fruta que tanto o
intriga. Recolhe um djambalau, examina o negro fruto. O dia já se ergueu, as
sombras vão minguando na quentura do chão. O sol, voluminoso, sucessivamente
sempre sendo um. Muidinga imagina como ser uma aldeia, essas de antigamente,
cheiinhas de tonalidades. As colorações que devia haver na vila de Kindzu antes
da guerra desbotar as esperanças?! Quando é que cores voltariam a florir, a
terra arco-iriscando?
Então ele com um pequeno pau rabisca na poeira do chão: Azul. Fica
a olhar o desenho, com a cabeça inclinada sobre o ombro. Afinal, ele também
sabia escrever? Averiguou as mãos quase com medo. Que pessoa estava em si e lhe
ia chegando com o tempo? Esse outro gostaria dele? Chamar-se-ia Muidinga? Ou
teria outro nome, desses assimilados, de usar em documento?
Mais uma vez contempla a palavra escrita na estrada. Ao lado,
volta a escrevinhar. Lhe vem uma outra palavra, sem cuidar na escolha: LUZ. Dá
um passo atrás e examina a obra. Então, pensa: a cor azul tem o nome certo.
Porque tem as iguais letras da palavra luz, fosse o seu feminino às avessas.
De súbito, lhe chegam sons distantes no tempo, semelhando gritos
de meninagem em recreio. O
menino estremece: aquela era uma primeira lembrança. Até ali ele não se
recordava de ocorrência anterior à enfermidade. Corre em balbúrdias para o
autocarro.
- Tio, tio! Eu me lembrei de minha escola!
Tuahir sorri, carantonhoso. Faz conta que nem ouve, entretido com
nenhuma coisa. O rapaz repete, sacudindo o falso-dito tio.
- Me lembrei, juro!
- Te lembraste o quê?
- Das vozes, da barulheira dos outros meninos.
- Escuta uma coisa de vez por todas: nunca houve nenhuns outros
meninos, nunca houve nada. Ouviste? Fui eu que te apanhei, baboso e ranhado,
faz conta tinhas sido dado parto assim mesmo. Nasceste comigo. Eu não sou teu
tio: sou teu pai.
Empurrado com brusquidão, o miúdo tomba sobre os ferros do
machimbombo. Afinal, era essa a razão de ele negar ser chamado de tio? Era esse
o motivo por que o velho lhe ocultava todo seu passado? Então, o miúdo sorri
com doçura e se ergue sobre os joelhos. O corpo lhe tropeça numa fraqueza e volta
a permanecer de gatas. O velho se apressa a debruçar sobre ele, em aflição:
- Lhe aleijei, miúdo?
Assim como está, Muidinga se limita a negar com a cabeça.
Tuahir insiste:
- Então, se está sentir mal? Lhe voltou a doença?
O rapaz se volta a erguer e enfrenta o velho. Seu rosto está
sereno, parece acrescentado de uma repentina idade:
- Se esse é o seu medo vou dizer o seguinte: lhe gosto mesma coisa
fosse o autêntico meu pai.
Tuahir reage, apanhado em armadilha. E se torna grave: Levante-se, miúdo!
Por que que é que anda a gatinhar pelo chão feito um cabrito? Ambos se separam
e se arrumam em quietude.
Ficam assim, amuados até serem surpreendidos por barulhos que
chegam do mato. O miúdo se levanta, precipitado. Acredita serem pessoas que se
aproximam. Ensaia correr, sua intenção é entregar-se de braços, seja quem for
que se aproxime. Mas Tuahir lhe corta o gesto com secura:
- Não mexa miúdo!
- Porquê? É gente que está vir. Vêm para nos tirar daqui...
Não termina a frase. A mão do velho se calca sobre os seus lábios,
impondo o grave silêncio. Então, por entre os altos capins, assoma um elefante.
O bicho se arrasta, cansado do seu peso. Mas há no demorar das pernas um sinal
de morte caminhando. E, na realidade, se vislumbra que, em plenas traseiras,
está coberto de sangue. O animal se afasta, penoso.
Muidinga sente o golpe da agonia em seu próprio peito. Aquele
elefante se perdendo pelos matos é a imagem da terra sangrando, séculos
inteiros moribundando na savana.
- Dispararam sobre o bicho.
- Quem foi, tio?
- São
esses da guerra. Querem os dentes para vender lá fora.
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