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sábado, 13 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 12]


Não sei quanto tempo passou. Lembro mais são as noites. Lembro as estrelas, longínquas vizinhas que não dormiam. Lembro a lua se exibindo como medalha no decote da noite. Eu olhava o astro, suas pratas. Maldiçoava minha sina: os cornos da lua sempre apontavam para cima! Meu pai me ensinara a ler as luas.
Aquelas pontas, viradas para o alto, eram o sinal que a desgraça continuava apostada em mim. E me marrecava na canoa, ingénio, acrediteísta. Era justo aquilo? Que mal eu fizera? Ia pondo a vida em recapítulos, havia sim as desvirtudes, bondosas atropelias. Em que vida não figuram? É como não se encontrar pedaço de lenha seca no chão do Inferno. Mas sempre cumpri os comportamentos aconselhados pelos mais velhos. Eu me dedicara a ser filho, aprendedor do meu destino. O barco em que seguia fora abençoado nas devidas cerimónias, eu lhe pusera o nome de meu pai: Taímo. Na primeira viagem, a todos eu premiara com comida e bebida, a gente festejara em cima do barquinho como mandam as tradições. Por que motivo, então, tanta coisa se azarava em meu caminho? No fundo, eu adivinhava a resposta.
- Pai não me castiga dessa maneira, suspliquei.
À volta, nenhuma resposta. Só as ondas se sucediam, em cada onda o mar se despindo sem nunca chegar à nudez. Eu estava preso naquele infinito. Sempre a água me trouxera facilidades, nela eu ficava no à-vontade de gafanhoto em capinzal. Naqueles momentos, porém, me concorriam confusas desordens. Me vinha vontade de regressar, tornar a alimentar o meu falecido velho, me simplificar no nada acontecer da aldeia. Sentia saudade das tardes com Surendra. Lá, em minha aldeia, no sempre igual dos dias, o tempo nem existia.
Contudo, o actual desejo de me tornar um naparama me fez continuar. Sacudi aqueles pensamentos que me convidavam a deixar a viagem. As ideias, todos sabemos, não nascem na cabeça das pessoas. Começam num qualquer lado, são fumos soltos, tresvairados, rodando à procura de uma devida mente.
Numa das seguintes noites, escuras de perder o próprio nariz, tive, quem sabe, um sonho. O mar parava, imovente.
As ondas se aplanavam, seu rugido emudecia. Havia uma calmia dessas que precederam o nascer do mundo. Então, súbito e inesperado, das fundezas emergiram os afogados. Vinham ao de cimo, borbulhavam em festa. Entre eles estava meu pai, idoso como não o tínhamos deixado. Chamou-me, saudou-me sem nenhum afecto.
- Fizeram bem não me enterrar. Esse chão está cheiinho de mortos.
Eu esperava dele um pequeno sentimento paterno, por deslize que fosse. Mas nem agora, regressado, ele se dedicava. Se limitava a prosapiar sobre o sítio para onde transitara. Não estava satisfeito com os aléns. Também lá não sucedia o sossego: toda a hora os ossos disputavam lugar nos seus antigos corpos. Na confusão, eles se baralhavam todos e se combinavam em desordem, ossos de uns em corpos de outros. No resultado, se pariam desencontrados monstros.
- E tu, filho, que andas por esses caminhos selvagens? Não sabes estes trilhos não foram limpos dos xicuembos? Ou queres cair nas boas desgraças?
Quando eu tencionava responder, lhe falar de minha entrega aos guerreiros blindados, já meu pai me dava as costas. Mesmo depois de morto, chegado em mim só em sonho, ele me ignorava. Chamei por ele e, voz erguida, me expliquei: eu estava a ser guiado por minha vontade. E essa vontade fora ele que me ensinara. Ao fim ao cabo, eu estava cumprindo suas silenciosas ordens. Mas meu pai, o velho teimoso Taímo, negou que fossem suas ordens. Ele me comparou aos mortos. Eles andavam com ossos desencontrados; eu andava com alma de um outro.
- Podes ter certeza: minhas ordens não são. Lá, só ouço teus passos. O que procuras, afinal?
- Vou ajudar a acabar com essa guerra. Me acredita, pai.
Ele sorriu, desprezador. Eu, se me pensava esperto, não descobrira a razão da vida estar a correr às mil porcarias? Tudo aquilo era castigo encomendado por ele, meu legítimo pai. Minhas desavenças, os tropeços que sofria, provinham de eu não ter cumprido a tradição. Agora, sofria castigos dos deuses, nossos antepassados. Lamentava-se da cansativa morte:
- Sou um morto desconsolado. Ninguém me presta cerimónias. Ninguém me mata a galinha, me oferece uma farinhinha, nem panos, nem bebidas. Como posso te ajudar, te livrar das tuas sujidades? Deixaste a casa, abandonaste a árvore sagrada. Partiste sem me rezares. Agora, sofres as consequências. Sou eu que ando a ratazanar teu juízo.
- Mas, pai, durante todos os dias eu te levava comida...
- Nas primeiras noites, sim. Depois, nunca mais eu vi nada de comer. Só a panela vazia, mais nada.
- Alguém comia...
- Ninguém toca em prato de defunto.
O velho Taímo se explicou: eu não podia alcançar nada do sonhado enquanto a sombra dele me pesasse. A mesma coisa se passava com a nossa terra, em divórcio com os antepassados. Eu e a terra sofríamos de igual castigo. Depois, avançou ameaças: já que eu tanto queria a viagem, num dado entardecer, me haveria de aparecer o mampfana, a ave que mata as viagens. Estar de asas abertas, pousado sobre uma grandíssima árvore, disse ele.     [continua]

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