Ri-me, inesperado. Séria, ela argumenta: a tua língua também há-de
aumentar quando fores velho. Ou ser que é o resto da cara que diminui com o
tempo?
- Não lembra Farida?
- Com a língua assim não posso lembrar nada.
A velha brincava-me. Então me excedi, em altos tons. Falei em
desordem, com pronúncia que me vinha do peito. Disse tudo. Que vinha por causa
de Farida, tinha sido ela que me pedira que procurasse seu filho dela.
- Não diga que não se lembra de Farida. Não posso acreditar que
tenha esquecido.
Dona Virgínia bastante se admira com meus modos, me puxa pelos
braços para dentro de casa. Está com nervos na flor da pele. Me ordena
silêncio, enquanto segredeia:
- Não posso falar aqui.
- Porquê?
- Senão esta minha casinha se enche de fantasmas.
- Falamos onde, então?
- Vamos para minha antiga casa. Me faça uma coisa, entretanto: me
chama de vovó. Para eu lhe ver como uma criança.
E fomos ao passo lento de Virgínia. No caminho ela me confessa seu
medo: nunca tinha regressado ao velho casarão. Por isso, quando chegamos
prefere não entrar. Ficamos os dois nas escadas da moradia colonial. Sentamos
nos degraus. Virgínia recorda seu cruzamento com Gaspar, o menino de Farida.
Lembra uma incerta manhã, alguém batendo em sua janela:
- Vavó: está um menino morto no seu quintal.
Virgínia acorreu às traseiras e viu um corpo estendido entre os
capins. Não estava morto. Apenas dormia, exausto. Ela confirmou que o menino
ainda estava vivo mas não o apanhou nem amparou. Foi buscar uma pá e atirou-lhe
com terra, enquanto dizia:
- Morre, meu menino. É melhor morrer-se, enterradinho, que ficar
aqui. É que esta vida não dá acesso aos meninos.
As outras crianças chegaram e lhe viram sepultando o vivo. Se
intrometem, suspendendo a intenção da velha.
- Vavó deixe ele viver! Só um bocadinho!
- Para o quê?
- Para ele nos contar a estória dele.
Virginha duvidou, mas concorda. E assentaram.
O intruso que se mantivesse e repousasse até se recompor da
palavra. Que eles andavam carecidos de novidades, dessas que vale a gente
acreditar. Os meninos e a velha se conluiaram: nós lhe curamos e alimentamos e
depois matamos, ninguém mais vai pôr ouvidos na narração dele. Fica estória só
nossa. E se ajustaram:
- Lhe guardamos no poço, amarradinho para não fugir.
O poço estava seco, devido da ausência das chuvas. Levavam-lhe
comidas, lhe trocavam os trapos já molhados e fedorentos. Outro qualquer teria
esvanecido. Mas Gaspar era constituído, moço de suar e ressoar. Mesmo dentro do
húmido poço ele foi ganhando forças, sua pele se rebrilhou. Quando, de noite,
lhe tiravam das funduras ele se mantinha calado, dobrado e vincado. Os meninos,
olhos cheios, punham nele toda a expectativa. Mas ele demorova a soltar a voz.
- Vão ver é mudo.
Desencadearam-se então grandes chuvadas, dessas de encher todos os
mares. Virgínia pensou no poço, Gasparzito no fundo. Os meninos foram com ela
ver se a água já cobrira o buraco do poço. Ainda não. A chuva torrenciava,
quase nem se via um palmo mesmo em noite de lua plena. Espreitaram, nada viram.
Escutaram: só o timbiliar das gotas no fundo. Já se retiravam quando uma voz
lhes chamou. Era Gaspar que gritava. Tinha-se decidido a falar. Foi uma geral
exclamação, um plenário de alegrias. A velha ordenou que juntassem forças e, no
puxar-junto, retiraram o miúdo do poço. Estava encharcado, tremia dos pés aos
cabelos.
- Tenho frio, foi a primeira coisa que disse.
Deram-lhe um agasalho e ordenaram: conta, conta uma estória.
Fizeram uma roda à volta dele. Um dos meninos endurou um dedo e avisou:
- Ai de ti se não gostarmos da tua estória.
Gaspar começou a medo. Contou a sua vida, sem esconder detalhe.
Desfiou prosa por tempo. Quando se calou a chuva tinha parado. Os miúdos se
entreolharam. Não tinham gostado, era uma estória triste. Nos dias de hoje,
quem quer fantasiar desgraças? Um coro de estridências se levantou clamando
para que o contador fosse punido. E que fosse castigo de peso, para aprender no
curto resto de sua vida. Relançado no poço e coberto de pedra, sugeriam uns. Outros
simplificavam: seja enraizado na horta da avó, volte-se ao princípio da vontade
dela. Enquanto os ânimos se enroscavam um silêncio se foi compondo. Todos
esperavam a sentença de Virgínia. A velha, contudo, parecia desértica,
abstasiada. Os olhos duravam mais que uma tristeza eterna, tanto que doíam de
serem vistos. Com um gesto vasto mandou que a meninada se afastasse.
- Deixem-me ficar sozinha com ele.
As crianças, surpresas, obedeceram. Saíram pelo escuro, pés lentos
de contrariedade. A velha enfrentou o jovem, sem nada pronunciar.
- Não posso ir, eu também?, perguntou Gaspar.
- Não.
- Porquê?
- Porque tu és meu filho. Teu pai foi o meu falecido homem, tu és
quase-quase do meu sangue.
A velha se ergueu e sacudiu a capulana. Passou o pano pelos ombros
do miúdo e lhe disse:
- Vem, vamos para nossa casa.
- Sentada no degrau de sua antiga casa, Virgínia ajeita o
agasalho, resguardando-se do cacimbo da noite. Parou de falar, deixa pelo meio
a narrativa. Está preocupada com alguma coisa, não sei qual.
- E depois, vovó, o que aconteceu?
- Esse menino ficou só uns dias em minha casa. Depois, fugiu
ninguém sabe para onde.
- Ele sabia de tia Euzinha?
- Sabia. Se calhar foi ter com essa tia.
A portuguesa aponta para uma grande mangueira. Era aquela a árvore
em que ela e Farida se sentavam lendo as cartas. Seus olhos estão carregados de
saudade. Súbito, Virgínia me manda calar.
- Shuut, vem aí alguém.
Não ouço nada. É um espírito, diz a velha. Não. Não é alma
nenhuma. É o administrador da localidade, o próprio. É ele que vem vindo,
escondido pelos atalhos. Virgínia se interroga, em sussurro. O que vinha
ele ali fazer, a uma hora daquelas? Resposta que só tive mais tarde quando
Quintino me contou a verdade dos acontecimentos. O que se passava sem que eu
nem Virgínia soubéssemos eram atribulações que agora posso descrever.
Disfarçado na escuridão dos trilhos, o administrador Estêvão Jonas
desconhecia o fim da sua pressa. A mensagem lhe chegara por vias atravessadas.
Fora o tal Quintino que lhe trouxera o recado. Dizia que ele, o
camarada-em-chefe, se deveria conduzir para casa do falecido Romão Pinto,
residência igualmente falecida por nela só habitarem as vozes dos malquistos.
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