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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Terra Sonâmbula - Mia Couto [parte 59]


Nono caderno de Kindzu

Apresentação de Virgínia


Minha discordância com Quintino começou antes sequer de partirmos. No dia combinado para sairmos para o mato ele não compareceu. Esperei em vão. Procurei aquele que me iria guiar e que agora parecia estar perdido. E realmente ele estava sem prestar acordo. Deitado num velho muro, ventre inchado, embriagordo. Atordoído, titupiante, Quintino se explicou:
- Hoje sou cobra com cócega na barriga: não saio do lugar.
- Porquê se embebou tanto, Quintino?
- Estive com Romão Pinto, é por isso bebi.
- Quem é esse Pinto, perguntei.
- Não lembra? É o colono, meu patrão. Aliás, meu ex-antigo.
- E agora?
- Agora tenho de beber mais, respondeu.
Desisti. Minha saída da vila estava adiada por uns dias. Decidi espreitar a velha Virgínia, conhecer aquela que fora a segunda mãe de Farida. Quem sabe ela teria informação sobre Gaspar? Cheguei e fiz espera, semioculto, lembrando o conselho de Quintino:
- Se passar daqui não se mostre. A velha não gosta.

A manhã foi subindo até que Virgínia lá saiu e se encostou no muro do quintal. Fiquei ali horas perdidas, espreitando a uma distância, entre os verdes-escuros das mafurreiras. O que vi ali me enche fantasia, estórias de reaver este mundo onde não cabemos. Apresento a velha Virgínia. Como se ainda a estivesse vendo, no actual hoje. Acrescento o que dela me disseram, em pinceladas de retrato. Entre mim e a idosa senhora a estrada se espreguiça sem nenhum fazer. Na margem dessa estrada eu me sento, retiro meu caderno e escrevo ali mesmo como se receasse que seu desenho me fugisse.
Dona Virgínia Pinto. Ali estava ela, varandeando no exercício de sua última meninez. Em nenhuma data os carros por ali poeiram. As cidades agora são muito longe, a guerra rasgou os cantos da terra. A portuguesa se vai deixando em tristonhas vagações. Branca de nacionalidade, não de raça. O português é sua língua materna e o makwa (Makwa: língua do Norte de Moçambique), sua maternal linguagem. Ela, bidiomática. Os meninos negros lhe redondam a existência, se empoleirando, barulhosos, no muro. Ela nem zanga. E me contam assim: que Dona Virgínia amealha fantasias, cada vez mais se infanciando. Suas únicas visitas são essas crianças que, desde a mais tenra manhã, enchem o som de muitas cores. Os pais dos meninos aplicam bondades na velha, trazem-lhe comida, bons-cumprimentos. A vida finge, a velha faz conta. No final, as duas se escapam, fugidias, ela e a vida. Dentro do quintal, tudo é bravio, o mato em minifúndio. Silvestram-se as flores, mais espinhos que pétalas. Os capins já lhe chegam pelos ombros. Ela nem repara a urgência de aparar o capinzal.
- Não é a relva que cresceu. Fui eu que adimínínuí.
Também a casa lhe parece maior. Agora, ela quase se perde no inaposento. A cama de casal é uma extensão muito enorme, acrescentando solidão na viuvice dela. Seu marido, Romão Pinto, se retirou da vida vai fazer dez anos. Do defunto esposo ela não guarda senão o inverso da saudade. Um pressentimento que ele haver ainda de chegar, fosse o falecido não um ente do passado mas do porvir.
Os vizinhos se admiram com essa falha em sua lembrança. No principio, acreditavam ser desbotura da memória dela. Coitada, o hoje é para ela mais antigo que o anteontem, diziam. Mas, depois, se convenceram de que outro problema se tratava. Porque Virgínia seguia teimando na ideia de um noivado ainda por estrear. No lugar do suspiro saudoso ela punha a ânsia do há-de vir.
- Quando eu for da idade de casar esse homem me vai chegar.
Os vizinhos não variavam: a velha durava mais que a validade de seu corpo. Deixassem seu sonho enlouquecer. E perguntavam, entre risos: o grilo, quando nasce, já tem a tocafeita? É assim a velhice. Virginha que trocasse passado por futuro, sonhasse não com o fim da vida mas com as nascenças que lhe faltavam. Tudo isso que importava?
- Sabem o motivo das orações dela? A gaja reza para não continuar a diminuir de tamanho.
E reproduziam as longas-lengas dela: Santíssimo Padre, se eu continuar a minguar, nem o cavaleiro Romão me notar quando passar por estas bandas. E repetia, de si para si, desencostadas frases: ontem, quando eu morrer. Virginia, Virginha, Virginhinha: o povo lhe indistinguia variedades do nome. E todos se condoiam de sua velhice como de uma orfandade se tratasse. Uma ocupação lhe dava fazer: criava sapos no quintal. De dia deixava as moscas patinharem os vidros das janelas. À tarde, juntava-as numa caixa e lhes tirava as asas, uma a uma. Chegada a noitinha ela saía de casa e espalhava as desasadas moscas pela relva. Chamava os batráquios por nomes, sortidos de sua autoria.
- Que vai ser deles quando eu morrer?
Fosse, quem sabe, essa a ideia dela: haver alguém neste mundo que lhe desse falta. O sol se vai devagarinhando, parece uma das moscas a quem a velha cortara as asas subindo pelas horas do dia. A velha se deixa ficar, misturando a sua sombra com a do velho muro, olhando a vida como um lugar que já foi seu. O certo é sabido: na seguinte manhã os meninos regressam, subitamente calados, e se envoltam nela.
- Cuidado, crianças. Não me pisem os sapos.
Uns lhe penteiam as névoas, outros lhe cortam as unhas, outros ainda lhe corrigem os cuspos no queixo. Ela se deixa, dissolvida, sonambulada num fecha-te sésamo. Os meninos lhe pedem: avó, conta estória. Virgínia sorri. Eles lhe chamam de avó. Como ela se embeleza com aquela palavrinha: avó!
- Qual querem, meus filhos?
- Conta aquela do pai de seu pai.
Virginha sorri, grata dos meninos se introduzirem em sua família como se eles fossem tão antigos como ela. Depois, vai soltando lembranças que escorrem como lento óleo. Saltita do português para o makwa, já não distingue sua original versão.
- Como chamava o mucunha (Mucunha: homem de raça branca), quem lembra?
- Mucunha Curucho, responde a miudagem numa só voz.
Ela acena, em festa: isso, o senhor Cruz, seu avô, homem frequente em terras do outro lado da montanha. Sua única obra havia sido um farol. Os meninos se disputam, todos querendo mexer na fábula da velhinha.
- Mas esse farol dele, afinal vavó? Se o mucunha vivia lá nos interiores, onde mar nem chega...
- Não acreditam?
Ela amuada, se desliga. As crianças lhe entregam mimos, rogam para que prossiga. Ela, nada. Por fim, eles aceitam a verdade dela. Sim, um farol. Um, próprio. Seja perto ou longe do mar, quem proíbe os faróis de nascerem onde bem entendem? Pois, esse farol: desempregado, nem de vista conhecendo nenhum barco.
- E para quê o mucunha precisava um farol dele?
Era promessa que ele jurara da vez que sobrevivera a um naufrágio. No enquanto da estória, o dito avô ia perdendo o nome, saltitando de morada e profissão. As falas de Virgínia não se acertavam. Os meninos, por vezes, corrigiam: o mucunha Curucho, não esqueça vavó. Mais Virgínia repete os contos mais a verdade se resvala: o avô Cruz de olhos louros, hoje; amanhã um negro de rosto carapinhoso. A criançada nem se importa.
Verdade, em infância, é um jogo de brincar. Em redor da anciãzinha, os miúdos sempre folgam, sem desilusão. Com gesto largo, ela pede menos barulho. Deixassem chegar, audíveis, as ordens de Deus. Que Ele é quem mandava os viventes descansarem.
- Vocês com vosso barulho nem me deixam ouvir a ordem Dele. Se calhar, até já me mandou descansar, nem dei por isso...
Terminadas as estoriazinhas, a velha leva a criançada ao poço. Vão em excursão, passarinhando. Chegados ao pátio vizinho, Viriginha repete o mesmo ritual: pede aos meninos que lancem uma pedra no poço.
- É para ver se ainda tem água, vavó Virginha?
Ela não responde. Pega numa pedra e atira na boca escura da terra. Lá, do fundo húmido, responde um lamento. Depois, sobe um canto, tche-tche-tchém. É um barulho, surdimudo, que vai crescendo.
- O que é isso, vavó?
- É a água chorando.
- E por que chora?
- A água chora com pena de uma viúva que perdeu seu marido, vítima de maldição. E essa viúva quem é vavó? Não sei, meus filhos, essa mulher parece já morreu, jaz conta foi há tantíssmo tempo.
Eram as palavras dela fechando o dia.
Pouso os cadernos e espreito a portuguesa. Vou refazendo a velha Virgínia enquanto ela, alheia e distante, está no outro lado da estrada, à mão de semelhar. Está tão perto que não resisto a me chegar mais, ouvir sua voz cheia de tempo. Atravesso a estrada, desobedeço das instruções de Quintino. A velha só quer ser visitada por infâncias? E se eu me mostrar criança, quem sabe ela me aceita? Estou quase junto a ela, chamo por seu nome. A velha levanta o rosto, fresteja os olhos para me enfrentar.
- Quem tu és?
- Sou Kindzu. Quero falar com a senhora...
- Falar?
- Quero saber de Gaspar. Se lembra dele, Dona Virginha?
A velha se alheia, passa os dedos pelo rosto em exame das minúcias. Toca os lábios e depois, tirando a língua de fora, pergunta:
- Vês a minha língua?
- Vejo. Porquê?
- É que a minha língua está a aumentar de tamanho.

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