Cheguei a pensar que o dia sonhado por Raul Seixas seria hoje, mas depois me dei conta de que furei o bloqueio invisível que deveria me manter em casa e quando percebi já estava na rua a caminho do trabalho, como o "Maquinomem" de Helena Kolody, ou uma maquinulher.
Alguns perceberam como parar a Terra e se juntaram ao bloqueio, outros acreditaram se tratar apenas de "mais uma manifestação" e engrossaram o lado dos que se opõem à oposição e, uns ainda, apenas acordaram e como todo dia fizeram "tudo sempre igual"; desejando apenas "ter uma casinha branca de varanda, um lugar de mato verde, pra plantar e pra colher".
Assim como Raul, Saramago também pensou um jeito de parar a Terra e ensaiou sobre a cegueira; aquela, que mesmo vendo, não nos deixa retirar a névoa que encobre o olhar, aquela na qual mesmo enxergando nos paralisa o campo de visão e aos poucos nos faz cantar "felicidade foi embora e a saudade no meu peito não demora" trazendo à tona lembranças de um fazer não feito, de um dizer não dito e de um bloqueio por tantas vezes rompido. Bloqueio este que deveria dar olhos bem grande para ver melhor, ouvidos bem grandes para ouvir melhor e uma boca bem grande para gritar melhor.
Mas, "enquanto isso, na sala de justiça", Coringa resolve trapacear mais uma vez e coloca cinco centavos entre suas cartas para fazer a máquina girar, a Terra voltar ao seu curso e distribuir a felicidade em doses que se usadas corretamente podem curar uma cegueira momentânea.
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