Não respondia coisa nem coisa. Seria que ele, pessoalmente, tinha
morrido? Perguntei, de inocente. Em redor, os outros se mancharam a rir. Eu não
me afligisse, aquilo era muito costumeiro: o magrito acabava sempre assim as
noites, no encosto do chão. Abacar se chegou até mim, amaciando os nós dos
dedos.
- Tive que lhe arrear. Não tenho gosto de bater. É só para calar o
gajo.
Foi então que, naquela penumbra ponteada de lamparinas, surgiu uma
mulher acompanhada de um cão de dimensões. Antoninho me sussurrou: aquela era
Juliana Bastiana, a prostituta cega. Olhei a dita enquanto o silêncio
regressava àquele lugar fumarento. Shetani chamou Abacar e disse-lhe qualquer
coisa ao ouvido. Os dois se riram, alto e mau som. A cega abria caminho entre
as mesas. A mão dela, ao de leve, tocava o dorso do animal: assim se guiava.
- Estou ouvir o cheiro de um homem de fora. Quem sabe me trazem
notícia do meu brigadeiro...
Suspirava saudades que nem convinham a uma mulher sabida e cursada
em
contrabandalheiras. Seu modo de ser cega fazia que não
parecesse uma dessas trampalhonas, virabazucas (Virabazucas: de bazukas,
garrafas de cerveja). Ela se chegou, me cheirou. A saia dela se apertava no
corpo, o rabo quase nem devia respirar.
- Não tenhas medo do cão. Ele é mais bondoso que muitos desses,
disse apontando para a multidão.
Me pediu ser paga, juntou logo três copos. Mandou o cão para fora,
o bicho que esperasse por ela. Obediente o cachorro meteu as pernas entre o
rabo e saiu. Olhei em redor, a conversa embaretecera, risos rolando em risos. Nem parecia ter
havido o tiroteiro, há segundos. Não parecia mesmo haver lá fora, tudo se
resumindo àquele barzito. A cega pareceu adivinhar meus pensamentos.
- Graças a Deus sou cega. Lá fora, o mundo está pior. Por causa
essa guerra, já ninguém se compaixona por ninguém.
Ela então contou sua razão de suspirar: aguardava o brigadeiro
Silvério Damião, seu amante muito militar, exercendo patentes no exército
colonial. Juliana historiava: que o brigadeiro tinha saído em missão recente
contra os turras, na defesa da lusitana terra. A cega misturava os tempos,
fazia do passado um tempo vigente. De um brusco gesto, meteu todo um braço
dentro de sua saca e retirou um molho de envelopes.
- Tudo isso são cartas dele, não passa nenhuma semana que não
escreva. Queres ler, estrangeiro?
Segurei as cartas, hesitante. Não li nenhuma. Aproveitei o momento
para lhe explicar o motivo da minha presença naquele bar. Quem sabe ela me
poderia apontar alguém capaz de me acompanhar em procuras no mato. Juliana
Bastiana permaneceu sem resposta, parecia nem lhe chegara meu pedido. Pensei
que deveria abrir um pouco dos motivos, lhe devia uma explicação. Mas ela me
interrompeu:
- Há um motivo de amor?
- Sim, há.
- Então, não preciso saber mais.
Sorri, agradecido. Mantinha as cartas na mão, com delicado respeito,
como se ela me pudesse ver. Devagar fui pousando os envelopes sobre a mesa. Os
homens me olhavam, desdenhosos. Eu, um de fora, gozava a companhia de Bastiana.
Baixei a voz e o gesto para não criar caso. As caras em volta eram de nenhuns
amigos. Antoninho, só então reparei, já tinha saído do bar.
Juliana me pareceu adivinhar o sentimento:
- Não tenha medo. Esses gajos é que tem razão para terem medo.
Só o brigadeiro Silvério, seu distante amante, era um homem muito
inteiro, sem minhufas (Minhufas: medo) de ninguém. Era por isso que os
outros sempre se irritavam quando ela anunciava o breve regresso do militar.
Voltei ao assunto da minha pergunta. Adiantei que se tratava de
procurar uma criança há muito abandonada. Juliana lançou um terrível pressentimento:
se fora há muito tempo, então esse miúdo devia andar com os bandos,
patifaristando pelos matos, feito semeador de infernos.
- Mesmo assim lhe quero encontrar, respondi.
Eu queria
ganhar tempo, entreter a prostituta a ver se ela se inclinava a deixar cair o
nome de alguém que me servisse de guia.
- Tens arma, estrangeiro? Não tens? É muita pena: porque era bom
que ensinasses a esse menino maneiras de matar, bons métodos de roubar.
Da bolsa retirou um cigarro e, sem acender, o ajeitou entre os
lábios. É só para os outros verem, nem tu sabes quanta inveja vale uma coisa
dessas, disse ela abanando o cigarro.
- Encontras o miúdo, mas ficas proibido de lhe dar caneta ou
enxada. Isso não dá vida para ninguém. Vale a pena uma arma, estrangeiro.
Nestes dias, uma arma é que faz a vida. Rápida e boa.
Do cigarro apagado ela arrancava invisíveis fumaças. Foi rodando a
cabeça, espreitando as vozes. Sacudiu a cadeira, para me chamar a atenção.
Apontou a mesa ao lado onde estava Shetani.
- Tu não sabes o meu perigo de sentar aqui, sozinha consigo.
Não demorei entender. No fundo do bar, Shetani chamou Bastiana.
Usava os modos de espalhador de brasas.
- Anda-te aqui. Quero mostrar-lhe uma coisa.
Bastiana levantou-se com ar grave, apalpando as vozes, seus
cinzentos. Ainda quis ajudar. Mas ela rejeitou o meu braço e ordenou que me
afastasse. Avançou sem chocar em nada, postou-se diante de Shetani.
- O que é?
- Dá a tua mão, quero oferecer-lhe um presente.
- Vai para o mato, o seu lugar é lá.
- Estou-te a dizer, Bastiana. É um presente, uma encomenda que fui
dado por um brigadeiro colonial.
A prostituta estremeceu, seus olhos sorriram, vagaluminosos. Deu
um passo em frente, seu corpo se firmava como um credo. Shetani afastou a mesa,
ergueu-se com vagares. Segurou a mão de Juliana Bastiana, abriu-lhe os dedos
com força.
- Toma, Juliana Bastiana.
Colocou-lhe nas mãos uma qualquer coisa, ninguém percebeu o que
era. Conforme apalpou a oferenda, o rosto dela foi abrandando o sorriso e, aos
poucos, se fechou em mágoa.
Até que gritou um arregalado lamento e chorou. Veio até à
minha mesa, desta vez chocando-se nas demais cadeiras, cambaleoa.
- O que é, Juliana? Que te jazeram, conta-me.
Ajudei a se sentasse, seu corpo estava tenso, parecia ter tomado o
freio nos nervos. Em seu rosto se desprendiam gotas de grossa tristeza,
ensopando o pó-de-arroz. Voltei a pedir que me explicasse o que sucedera.
- Olha, vê o que fizeram com meu cão.
E abriu as mãos. Nelas estavam duas orelhas cortadas, ainda
sangrando, inundando, de vermelho a concha de seus dedos. Eu nem me pensei.
Empurrei a cadeira, avancei sobre o milícia. Mas no caminho o braço da
prostituta me travou, em aflição.
- Onde vais?
- Ele tem que aprender, Juliana. Alguém deve...
- Fica quieto, seu burro.
Juliana gritara aquelas palavras. Levantou os braços no ar,
balburdiando gestos, palavras de arder. Me puxou para o assento com força, os
desempregados olhos confirmavam sua cega decisão de me reter. Por fim, vendo-me
vencido, soprou aliviada como se escapassem reticências de sua alma.
- Ele não fez por mal, estrangeiro.
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