Se voltam a sentar em silêncio. Há uma tristeza que nem o cantarolar do
velho consegue dispersar.
- Tio Tuahir.- estou a pensar uma coisa. Mas o senhor vai zangar,
eu sei.
- Você anda pensar de mais. Não lhe devia ter curado tanto. Um
bocadinho de doença até lhe ia fazer bem. Chateava menos...
- Mas, tio é só imaginar. É um sonho que tenho...
- Não pensa, rapaz. A vida é tão curta, você quer encher ela de
tristezas? Não, tio. Estou a pensar... Não, é melhor não dizer.
- É melhor, mesmo. Fica calado.
Muidinga insiste depois de um silêncio. O velho já tinha
regressado ao cantochão.
- Vou dizer. Estou a pensar eu sou Junhito.
- Quem é junhito?
- Junhito, esse menino do escrito que eu li, aquele da capoeira.
- É pena não ser mesmo. Porque se fosse galinha, já eu lhe
depenava para um bom caril.
- Estou a falar sério, tio Tuahir.
- E se vai calar muito sério, também.
O miúdo realmente se mantém calado até ao fim do dia. Já escurece
quando reentram para o machimbombo e se preparam para deitar. Mais uma vez lhes
chega o barulho do elefante. Parecia um rastolhar, lá longe. Quem sabe o bicho
se findou, tombado no vasto chão? O escuro se aproveita para entrar dentro do
refúgio dos dois esperantes.
- Tio, posso acender a fogueira?
- Acenda lá fora.
- Mas eu queria ler, tio.
- Leia lá fora.
Muidinga arruma uns paus secos e transporta consigo os escritos de
Kindzu. Acende o fogo na berma da estrada. Depois, se instala para ler em
comodidade o segundo caderno. A voz de Tuahir o sobressalta:
- Não vai ler isso sozinho, pois não? [continua]
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