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sábado, 13 de outubro de 2012

O útil e a obra de arte em Marx e Heidegger


 Como as divergências dos autores em relação à questão do útil se reflete na maneira
distinta como ambos os filósofos encaram a obra de arte.

O valor de uso em Marx
          A questão do valor de uso é o ponto de partida da análise da mercadoria, que
compõe a primeira parte do “O Capital”. Para o filósofo, o valor de uso é a célula
primordial de valor a partir do qual, em princípio, derivaria a forma de valor ou valor
de troca. A partir desta derivação, Marx procura expor o processo de autonomização
do valor em suas formas na sociedade capitalista: primeiro na mercadoria, depois no
dinheiro e, finalmente, capital. O fim subjetivo do capitalista é a valorização do valor
e   Marx   questiona   como   é   possível   que   o   valor   valorize-se   por   si.   Embora   o   que
interessa   para   nosso   trabalho   seja   compreender   de   onde   parte,   no   pensamento   de
Marx,   a   noção   do   útil,   que   ele   chama   de   valor   de   uso,   e   não   todo   o   caminho   da
valorização,   percebe-se   desde  já,   a  importância   dada  pelo   filósofo   ao   valor   de  uso
como fundamento da sua teoria econômica.
         Nota-se também que este caminho é similar ao que Aristóteles faz no terceiro
capítulo     de  “A    Política”,   na  tentativa    de  distinguir    a  economia      da  “ciência    da
indústria e do pequeno comércio”, a partir da diferença entre riqueza e acumulação
de dinheiro. O que constitui a verdadeira riqueza para Aristóteles é a quantidade de
coisas   úteis   e   necessárias   à   vida,   e   a   economia   é   essencial   na   medida   em   que   tal
reflexão     pode    levar   à  melhor     distribuição    dos    bens  que     são   indispensáveis      à
existência dos homens.
         Assim       como     Aristóteles,    Marx      parte   da    coisa   enquanto      mercadoria,
fundamento   da  troca   e  da  riqueza  econômica.   Por   suas   propriedades,   a  mercadoria
satisfaz necessidades humanas. Para o filósofo, “a utilidade de uma coisa faz dela [a
mercadoria]   um   valor   de   uso.   Mas,   essa   utilidade   não   é   algo   aéreo.   Determinada
pelas   propriedades   materialmente   inerentes   à   mercadoria,   só   existe   através   delas.”
(MARX,        1989,    p.  42)   A   utilidade    da  mercadoria      mora   em     suas   propriedades
materiais. Embora em outro momento Marx chegue a afirmar que “O produto recebe
seu acabamento final no consumo” (MARX, 1974, p.109), está  claro que, para ele
como   para   Aristóteles,   o   cerne   do   valor   de   uso   está   no   próprio   objeto   e   em   sua
capacidade intrínseca de satisfazer determinada necessidade.
         Marx nota que estas necessidades variam historicamente, mas não o caráter
duplo da mercadoria: suas qualidades determinam seu valor enquanto útil (valor de
uso)   e  quantidade  de  mercadorias   determinará  a   possibilidade  de  troca  com   outros
produtos úteis. Deste modo, objetos como tecido, ferro, madeira são, cada um deles,
um conjunto que possui propriedades e modos diferentes de utilização que variam de
acordo   com   as   mudanças   nas   sociedades   ao   longo   do   tempo.   Assim,   os   diversos
modos de usar as coisas e a invenção de medidas socialmente aceitas para quantificar
as coisas, são atos históricos, convenções históricas. A utilidade é, portanto, variável
e aberta.
         Este caráter duplo também tem sua raiz na “Política” de Aristóteles, que usa o
exemplo de um calçado para resumir as duas maneiras de se fazer uso de uma coisa:
 “O     calçado    pode    ser  posto    nos   pés   ou   ser  usado    como     um    meio    de  troca.”
(ARISTÓTELES, 2008, p.19). A troca possui seu fundamento na própria natureza,
porque     os   homens     possuíam      muitas    ou  poucas     quantidades     de   coisas   que    são
indispensáveis para a vida. Tudo o que se possui pode ser transformado em objeto de
troca, porém Aristóteles repudia o tipo de troca que não seja segundo as necessidades
de cada comunidade. A riqueza, para o filósofo, não pode estar separada de uma vida
ética   cuja   finalidade   última   é   a   busca   pela   felicidade.   Para   termos   uma   existência
feliz, então, não precisamos de nada a mais ou a menos do que seja útil à vida.
          Para   Marx,   contudo,   as   necessidades   não   são   apenas   básicas,   fisiológicas,
mas seus desejos, suas fantasias. Com isso, o filósofo amplia radicalmente o espectro
das   utilidades,   que   passa   a   abarcar,   dentre   outros  ‘produtos’,   a   arte.   Assim,   Marx
expande, mas segue a concepção aristotélica de coisa como algo dotado de matéria e
forma     que   adquiriu    predomínio      na  história   da  filosofia.   Ela   tem   sua   origem    na
determinação   em   que   tudo   o   que   existe   ou   que   se   produz   deve   ter   uma   utilidade.
Deste modo, um valor de uso só se realiza enquanto tal na sua utilização.

O útil em Heidegger
          O    útil  é   designado     por   Heidegger,     em    “Ser   e   Tempo”,     “utensílio”     ou
“instrumento   de   uso”,   “Aqui,   o   ente   não   é   objeto   de  um   conhecimento   teórico   do
mundo      e  sim   o  que   é  usado,    produzido     etc.”  (HEIDEGGER,          2009,    p.115).   Os
utensílios possuem serventia (utilidade), ou seja, eles foram feitos ou produzidos para
servirem para algo. Deste modo, ele concorda com Aristóteles e Marx quando estes
últimos afirmam que  “o sapato serve para  calçar os pés”. O sapato é  composto de
matéria  e forma,   e o material do qual é composto foi escolhido em   função do uso
preciso a que este utensílio se destina. O modo do homem lidar no mundo e com os
entes se dispersa numa multiplicidade de modos de ocupação. O modo mais imediato
de se relacionar e descobrir no mundo é a ocupação que se dá no manuseio e uso. A
compreensão do ser pertence  ao homem e se mostra sempre no seu modo de lidar
com o ente, seja com as coisas ou com os utensílios. Na ocupação com o utensílio
martelo, por exemplo, no martelar é que aparece sua utilidade. O martelo nem é mais
visto,   só   a  utilidade,   ou   seja,   o   próprio   martelar  é  que   descobre  o   uso   do   martelo.
Somente no uso, os utensílios são o que são.
         Porém      este   uso,   esta   serventia,    repousa    na   “fiabilidade”.     Essa    palavra
significa a confiança que o homem tem no útil. O sapato é confiável na medida em
que serve para proteger os pés, como se tornasse a extensão dos próprios pés. O uso é
apenas a conseqüência essencial da confiança. O útil é usado e desgastado, tornando-
se habitual. Na confiança, no uso habitual dos objetos úteis, nem percebemos o que é
o útil. Quando, por exemplo, o nosso sapato rasga, quando ele deixa de ser útil, é que
percebemos sua utilidade. Quando nos falta é que vemos sua importância enquanto
útil.   Para   Heidegger,   assim   como   para   Marx,   a   utilidade   de   algo   pode   variar   de
acordo com a história. Algo que é útil numa época, pode não ser em outra.
         Vale destacar que Heidegger diferencia o útil dos outros entes. Tudo o que
existe,   que   está   aí,   é   chamado   de   ente.   Os   entes   se   dão   ou   acontecem   de   modos
 diferentes e variados. O modo de ser do ente homem é diferente do modo de ser do
ente obra de arte, por exemplo, que é diferente do útil e da coisa. O útil é o ente que é
produzido para servir para algo. Os entes ou as coisas que não foram produzidos pelo
homem são diferentes dos objetos úteis, mesmo quando o homem põe uma utilidade.
O que é fundamental no útil, segundo Heidegger, é que, na sua produção, a serventia
é projetada e, a partir dessa projeção é que é pensada a matéria e a forma. “O produto
é fabricado como utensílio para algo. Consequentemente, matéria e forma, enquanto
determinações   do   ente,   estão   radicadas   na   essência  do   utensílio.”   (HEIDEGGER,
2002, p. 22). Assim, determinar o útil enquanto matéria que contém uma forma e que
possui   uma   serventia   cabe   bem   ao   útil,   porém,   essa  determinação   não   é   suficiente
para definir outros entes como as coisas e a obra de arte. Também a descrição das
propriedades de uma coisa é insuficiente para dizer o que ela é.
         A   definição   da   coisa   como   matéria   que   recebeu   a   marca   de   uma   forma,
segundo   Heidegger,   é   um   modelo   instrumental   e   utilitário   que   forma   a   base   do
pensamento   técnico   moderno.   Assim,   não   só   os   úteis  recebem   essa   definição,   mas
todos   os   entes.   Em   “Sobre   o   Humanismo”,   Heidegger   afirma   que   “a   essência   do
materialismo não está na afirmação de que tudo é apenas e somente matéria e sim
numa determinação metafísica, segundo a qual todo o ente aparece como material de
trabalho.” (HEIDEGGER, 1967, p.64). Para o filósofo, Marx concebe as coisas, os
entes,    apenas     como    produtos     do   trabalho,    ou   seja,   como     mercadorias.     Estas
cristalizações de trabalho humano só teriam valor quando houvesse trabalho contido
nelas, o que implica em afirmar que todo o trabalho teria que, necessariamente, ser
útil e produzir coisas úteis.
          Segundo   Heidegger,   a   essência   do   materialismo   se   esconde   na   essência   da
técnica   moderna   que   transforma   todas   as   coisas   existentes   na   natureza   em   objetos
disponíveis.   Ou   seja,   a   técnica   moderna   lida   com   os   entes   como   disponibilidade,
como um material que está aí para ser usado. Embora Marx e Heidegger concordem
quanto à natureza da utilidade e sua historicidade, bem como quanto ao processo de
materialização do útil em suas propriedades, há uma divergência fundamental, visto
que Heidegger rejeita a noção de Marx, que considera as coisas, os entes, apenas a
partir do viés de sua utilidade.

O útil e a obra de arte em Marx e Heidegger
          Cabe      agora    pensar     como     estas    concordâncias       e   diferenças     formam
perspectivas   distintas   na     análise   da   obra   de   arte. A   maior   dificuldade    para   esta
comparação reside no fato de que, enquanto Heidegger deixou em sua bibliografia
um texto definitivo sobre este assunto, “A Origem da Obra de Arte”, as menções de
Marx à atividade artística são escassas e esparsas. É certo que ele se interessava pela
arte e utilizou exemplos ‘artísticos’ em seus textos mais importantes. Ainda assim,
são menções fragmentadas, sem que haja uma reflexão mais detida do autor sobre o
assunto.     Optamos      por   ampararmos        nossas    considerações      nas   menções      à  arte
presentes   em   “Introdução   à   Contribuição   para   a   Crítica   da   Economia   Política”,   na
análise do trabalho produtivo e improdutivo dos “Manuscritos de 1861 a 1863” e na
 célebre   passagem   de   Engels   sobre   a   mão,   presente   em   “O   Papel   do   Trabalho   na
Transformação do Macaco em Homem”.

 A obra de arte em Marx
          Para    Marx,    que    segue    os  passos    de   Aristóteles,    as  sociedades      produzem
objetos úteis destinados à satisfação das necessidades humanas, quaisquer que sejam
elas.    A  natureza     está   encarregada      de  fornecer     os  materiais     que   pelo   trabalho    o
homem converte em riqueza. Engels propõe que a riqueza da arte, no que concerne à
sua prática, estaria em condensar em si milênios de aperfeiçoamento evolutivo que
seriam   também   produto   do   trabalho   humano.   Objetos   de   arte   parecem   ter   poderes
mágicos, porque são capazes de proporcionar uma fruição nas pessoas que apreciam
e mostram o grau de perfeição atingida pelo homem após gerações de trabalho:

                              Unicamente      pelo   trabalho,   pela  adaptação    (...)  dessas  habilidades
                              transmitidas a funções novas e cada vez mais complexas foi que a mão do
                              homem atingiu esse grau de perfeição que pôde dar vida, como por artes
                              de magia, aos quadros de Rafael, às estátuas de Thorwaldsen e à música
                              de Paganini. (ENGELS, 1990, p. 27)

         Embora        não   se   possa    saber    em    que    medida     Marx     concordava       com    a
proposição evolutiva de Engels, é certo que, para o filósofo, a produção artística faz
parte da divisão social do trabalho. Deste modo, a obra de arte é, também, produto do
trabalho   humano,   portanto   objeto   de   valorização   ao  menos   em   termos   de   valor   de
uso. A produção artística, a arte, existe, afirma Marx (1980, p.403), para satisfazer
nossas   necessidades   estéticas.   O   filósofo   vê,   portanto,   nestas   atividades,   como   em
todas as outras atividades humanas, um caráter utilitário.
         Enquanto mercadoria, porém, a obra de arte escapa, pelo menos em parte, ao
sistema   de   valorização   de   materialista,   na   medida   em   que   a   própria   arte   foge   ao
processo capitalista. Marx nota este fato ao analisar a natureza mercantil do trabalho
artístico:

                               Resulta    em   mercadorias,   valores  de   uso,  que  possuem    uma   forma
                              autônoma, distinta dos produtores e consumidores (...), tais como livros,
                              quadros,   em   suma,   todos   os   produtos   artísticos   que se   distinguem   do
                              desempenho do artista executante. A produção capitalista aí só é aplicável
                              de maneira muito restrita (...). (MARX, 1980, p. 404)

         Marx (1980, p.396) nota também outras tantas contradições entre o processo
artístico e o sistema capitalista. Em determinado momento, percebe que o tempo de
trabalho   não   serve   como   medida   na   determinação   do   valor   artístico   da   obra.   Sua
produção   pode   levar   algumas   horas   como   também   alguns   anos.   Ele   percebe   que,
exceto nos casos em que haja interesses de agenciadores (empresários etc.) em jogo,
o trabalho artístico não se enquadra produtivamente no sistema capitalista.
         Contudo, mesmo constatando estas contradições entre a razão materialista e a
produção da obra de arte, em momento algum o filósofo questiona a natureza útil da
obra  de   arte,   exceto,   talvez,   num   momento   de  perplexidade  em   que  tenta  entender
seu próprio apreço pelas obras do passado:

                               A   dificuldade   não   está   em   compreender   que   a   arte   grega   e   a   epopéia
                              estão ligadas a certas formas de desenvolvimento social; está sim no fato
                              de nos proporcionarem ainda um prazer estético, e de serem para nós, em
                              certos aspectos, uma norma e até um modelo inacessíveis. (MARX,1974,
                              p.125)

         Desconcertado   pela   própria   questão,   Marx   responde   de   modo   inconclusivo,
evocando   uma   certa   nostalgia   social   em   relação   às   culturas   do   passado,   similar   à
lembrança que um adulto sente dos tempos de criança.

A obra de arte em Heidegger
          Heidegger concorda com Marx que o útil é matéria dotada de uma forma e
que esta definição é extraída da sua essência, ou seja, o útil é feito de acordo com a
sua serventia. O que faz o útil ser útil é o seu uso, porque ele foi feito para servir.
Porém,   essa   definição   é   insuficiente   para   a   obra   de   arte.   Esta   possui   uma   posição
intermediária entre a coisa e o útil. Heidegger afirma: “Mas a obra não é um utensílio
que    além    de   ser  isso,   esteja   provido    de   um    valor   estético   que    se  lhe   adere.”
(HEIDEGGER,            2002,    p.35).    O   que    está   em    processo     na  obra     de   arte   é  o
acontecimento da verdade do ser. Não que a verdade só aconteça na obra ou na arte,
a verdade acontece de vários modos e um desses modos é na arte. “Pois o ser-obra da
obra está a ser, e só está a ser, em tal patenteação originária. Dissemos que, na obra,
está   em   obra   o   acontecimento   da   verdade.”   (HEIDEGGER,   2002,   p.   38).   É   bom
destacar   que   verdade   em   Heidegger   significa   manifestação,   desvelamento   de   ser,
ainda sem juízos de valor, depois é que a verdade acontece como falsa ou verdadeira.
         Para   Heidegger,   a   obra   de   arte   existe   independentemente   do   processo   de
capital. Ela faz parte do processo de criação do homem, que nem sempre está ligado
à   utilidade.    A   obra    de   arte  revela    o  mundo      poeticamente,      é   como    um    jogar
poeticamente com o mundo. A produção da obra de arte difere-se, pois, da produção
dos objetos úteis, já que o útil coloca em serviço o material que o constitui de modo
que este desaparece em sua utilidade. Na obra de arte o material não desaparece, pelo
contrário,      aparece    pela    primeira     vez.    Uma     escultura     revela    não    somente     a
representação de um corpo, mas também a pedra (mármore) retirada da natureza. A
pedra ganha uma nova significância, um novo modo de ser, quando é transformada
em     obra   de  arte.  Nesse     sentido,   ela  é  reveladora     da   natureza    e  de   sua   própria
natureza, e não reveladora da matéria. A obra de arte é o próprio ser se revelando,
sua própria verdade acontecendo. “A verdade vem a ser, sendo ela mesma ao modo
da   obra,   no   meio   do   ente.”   (HEIDEGGER,   2002,   p.   92).   Assim,   sua   função,   sua
serventia não é mais do que o seu aparecimento, seu desvelamento. Desse modo, ela
não tem uma utilidade precisa.
          Além de se revelar e de revelar a natureza, a obra de arte revela a verdade de
um     povo,    de   um    momento       histórico.    Aqui,    podemos       perceber     um    ponto    de
concordância entre Marx e Heidegger: uma vez que a obra de arte está situada numa
época da história, ela pode nos remeter a um momento histórico. Ela não existe fora
de   seu   contexto   histórico.   A   obra   é   abertura   de   possibilidades   de   manifestação   de
verdades epocais. Assim, as verdades ganham expressão na obra de arte.

Conclusão
          Do que foi exposto, podemos apontar que há acordo entre Heidegger e Marx
em considerar que os úteis são produzidas para servirem, para uma finalidade, para
uma   utilidade.   Porém,   para   Heidegger,   isso   não   cabe   à   obra   de   arte,   porque   esta
possui   uma   instância   ontológica.   Heidegger   discorda   do   ponto   de   vista   marxista-
aristotélico     que   vê   todas   as   coisas   sob   o   viés   da  sua   utilidade,    materialidade.
Entretanto, ele concorda com Marx na medida em que considera que o ser se dá junto
com tempo, ou seja, cada época tem o seu modo de desvelar ser. Na modernidade do
final   do   século   XIX,   o   pensamento   técnico   parece   chegar   ao   seu   extremo.   Isso   se
reflete    no   pensamento       de  Marx     que,   como     nenhum      outro,   consegue      captar   as
vicissitudes     de   seu   momento       histórico,   mas,    para   Heidegger,      não   ultrapassa    os
paradigmas impostos pelo pensamento técnico.
         Segundo       Heidegger,      a   técnica   possui    o   modo     de   lidar  com     as  coisas,
transformando   tudo   em   objetos   disponíveis,   encobrindo   o   ser   dos   entes,   retirando
suas várias possibilidades de se mostrar. Ou seja, deixamos de ver as coisas de outros
modos   novos   possíveis.   E   quando   colocamos   a   obra   de   arte   sob   esse   pensamento
técnico,   acabamos   por   limitá-la,   esvaziamos   as   suas   possibilidades   de   abertura,   de
verdades.   Assim,   ela   acaba   se   transformando   em   uma  peça   que   serve   apenas   para
enfeitar ou para causar fruição. O pensamento da técnica domina todas as instâncias
e promove uma realidade já dada, determinada e não passível de ser questionada em
seu ser.
         É    assim    que   Heidegger      percebe    a  sua   época,    com    um    esvaziamento       de
pensamento essencial, como a época do “esquecimento do ser”. Por outro lado, pode-
se   também      observar,     sob   o  ponto    de   vista   da  filosofia   de   Marx,    que    o  apelo
heideggeriano,   também   histórico,   a  um   pensamento   que  não   esqueça  o   ser   tende  a
subestimar as instâncias sociais da existência e idealizar o fazer artístico.
  
Referências bibliográficas
 ARISTÓTELES. A política. Rio de Janeiro: Edipro, 2008.
ENGELS,   Friederich  Sobre   o   papel   do   trabalho   na   transformação   do   macaco   em
homem. São Paulo, SP : Global, 1990.
MARX, Karl. O capital. Trad. Reginaldo Sant’anna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
1989.
__________,       Introdução    à   crítica  da  economia     política   In: Para    a  crítica   da
economia política: São Paulo: Abril, 1974 [Coleção Os Pensadores].
__________,  Teorias   da   mais   valia:   Vol   I.   Rio   de   Janeiro:Civilização   Brasileira,
1980.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
__________, Sobre o humanismo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967.
__________, Caminhos de floresta. In: A Origem da Obra de Arte. Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 2002.

Eliane Santana de Mendonça.
Mestrando em Filosofia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, Bahia – Brasil. 
E-mail: milafilosofia@gmail.com
Griot – Revista de Filosofia, Amargosa, Bahia – Brasil, v.2, n.2, dezembro/2010.


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