Total de visualizações de página
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
GRAMÁTICA, LÍNGUA, CÓDIGO E USO: ELEMENTOS PARA UMA REFLEXÃO - Adail SOBRAL*
Resumo: Apoiado na teoria dialógica de Bakhtin, o texto aborda o problema da variação linguística e da
gramática, da política linguística, do academicismo e do militantismo em defesa das variedades
linguísticas, situando-os social e historicamente.
Palavras-chave: Gramática; Língua; Código lingüístico; Uso lingüístico.
Résumé : A partir de la théorie dialogique de Bakhtin, le texte étudie le problème de la variation
linguistique et de la grammaire, de la politique linguistique, de l’académicisme et du militantisme
défenseur de la diversité linguistique, en les situant du point de vue social et historique.
Mots-clés : Grammaire ; Langue ; Code linguistique ; Usage linguistique.
INTRODUÇÃO
O problema da gramática e da língua e das tendências que esta segue, mesmo daquelas
que se queiram considerar espúrias, envolve o fato de certos teóricos e práticos se
arrogarem autoridade e, mais do que isso, de se julgarem detentores das únicas respostas
válidas. Vêem-se por aí pessoas especializadas em estudar a linguagem na sala de aula
que não conhecem a realidade da sala de aula comum do Brasil, mas só a de sua
academia, assim como se vêem pessoas que conhecem essa realidade mas sofrem na
mesma academia que a estuda porque ainda dominam pouco os códigos acadêmicos e a
própria norma (ou ao menos a versão da norma aceita na escola em que estão). Como
unir esses dois universos para melhorar o que interessa, a compreensão da linguagem e
a situação da sala de aula de língua portuguesa, bem como o próprio acesso à cidadania?
Porque língua envolve identidade, capacidade de exprimir-se, de reivindicar, de assumir
posição.
Este trabalho faz algumas considerações, do ponto de vista da teoria dialógica de
Bakhtin, e levando em conta toda a tradição de teorizações e estudos sobre a linguagem,
sobre o problema da variação lingüística e da gramática, da política lingüística, do
academicismo e do militantismo em defesa das variedades lingüísticas, incluindo
* LAEL/PUC-SP; GES-USP; CNPq; Academia SKEPSIS.
SOBRAL / Passages de Paris 2 (2005) 209–218 210
posições que,se não são militantes, nem por isso deixam de mostrar-se mal informadas.
Apresenta alguns fatos relativos à necessidade de defender ora a monoglossia ora a
heteroglossia em diferentes contextos históricos a depender das características desses
contextos.
Além disso, discute a necessidade de levar em conta tanto o uso lingüístico como o
“código” lingüístico, propondo uma redefinição da própria noção de sistema lingüístico
a fim de incluir igualmente os usos da linguagem. Defende a idéia de que o “sistema da
linguagem” compreende o sistema lingüístico, vinculado com o significado, e o sistema
do uso lingüístico, vinculado com o sentido. Complementam-no algumas idéias sobre a
aceitabilidade social de formas lingüísticas do ponto de vista da inserção social
específica dos sujeitos envolvidos - a fim de demonstrar que o exercício da expressão
lingüística – e da legislação e das opiniões sobre ela – é sempre interessado, vindo de
locutores situados social e historicamente e dirigindo-se a alocutários igualmente
caracterizados dessa maneira.
I. GRAMÁTICA, PRECONCEITO E MILITÂNCIA
É quase lugar comum, no tocante à língua, o uso de termos avaliativos como “certo” e
“errado”, mesmo em alguns setores acadêmicos dos quais é de esperar certo cuidado. O
perigo inerente ao uso dessas categorias é a exclusão que isso implica ou pode implicar:
quem usa o dito “errado” e não tem condições de sair dessa situação por si acaba por
assumir nesse uso uma identidade de pessoa inferior. E quem usa o dito “certo” pode
arvorar-se o direito de ditar o que pode e deve, e o que não pode e não deve, ser dito —
partindo de categorias estáticas que são infiéis ao dinamismo da linguagem. Um
exemplo disso é a classificação de certos usos como figuras de linguagem, quando vem
de escritores canônicos, e como vícios de linguagem, quando vem de quem não ocupa
postos na hierarquia social.
E que dizer – para abordar “uma das outras” faces da moeda – de quem despreza na
teoria o normativo, mas o emprega em sua argumentação, em todos os seus textos? Não
seria isso uma posição indefensável, capaz mesmo de sugerir interesses
inconfessos/inconfessáveis? Ou resultado do afã de enxertar motivações políticas na
análise, necessariamente interessada, é claro, das questões lingüísticas? A meu ver, o
pesquisador deve, por razões éticas, declarar desde o começo qual a sua posição política
e qual seu interesse específico na pesquisa que faz – ou calar-se para sempre! E a
coerência que lhe vai ser cobrada é a compatível com essa sua, por assim dizer,
“profissão de fé”. Não proponho rejeitar essa ou aquela posição política, ou políticopartidária,
mas tornar claras todas as posições a fim de evitar que, ao tentar apontar o
pecado, acabemos por condenar o pecador!
É por outro lado evidente que o uso de "variedades" não exclui o fato de haver uma
variedade mais valorizada, claro que não só por razões lingüísticas, incluindo a questão
de tentar impor o uso da língua literária como padrão do escrito e até do falado, entre
SOBRAL / Passages de Paris 2 (2005) 209–218 211
outras. Lembremo-nos de que até recentemente se pensava que a língua falada não era
estruturada, quando hoje se sabe que ela dispõe de uma estrutura complexa que mal se
começa a discernir. Do mesmo modo, e isso por vezes cai no esquecimento, a norma, ou
melhor, as normas, não excluem por razões intrínsecas as variedades, devendo-se essa
exclusão, quando existe, a uma política específica, confessada ou não.
A língua é uma correlação permanente de forças centrífugas e centrípetas: a unidade
versus a diversidade; a diversidade vem tanto dos experimentalismos como das
variedades não-padrão. Logo, abandonar a unidade destruiria a estrutura social e recusar
a diversidade empobreceria em muito a língua. Assim, se enrijecer a norma é
empobrecer a expressão (e ao nosso ver é isso que fazem os prescritivistas), desprezá-la
também é (e a nosso ver é isso que fazem certos lingüistas – e não lingüistas — que
elegem os usos, acriticamente, a valor supremo.
Qual a solução? Propomos um (difícil) equilíbrio: os "cientistas" devem opinar, o
mesmo ocorrendo com os usuários especializados (tradutores, ativistas, etc.) e não
especializados; a gramática normativa deve continuar a ser valorizada, sem prejuízo da
descritiva e da "intuitiva", e sem privilegiar a nomenclatura em detrimento da estrutura;
e os usuários das outras variedades devem ser ajudados a conhecer a padrão, mas não
discriminados por não a conhecer nem impedidos de usar outras variedades.
Este último ponto é que me faz desgostar dos prescritivistas: eles discriminam, ao não
desvelar o motivo de tantos usuários não terem acesso à norma: não é burrice nem
descaso, mas uma subcategoria da falta de acesso a outras coisas essenciais. E dizer que
falam errado não ajuda em nada. Assim como dizer que não devem conhecer a norma,
ou que esta não importa nem deveria existir também não. Além disso, a norma também
varia no tempo, como uma simples observação pode demonstrar; querer impor à norma
padrões de outro estágio histórico, passado ou projetado, também constitui uma séria
distorção à qual o lingüista deve se opor com veemência.
II. O LINGÜÍSTICO E O NÃO-LINGÜÍSTICO
O problema, portanto, não é (só) lingüístico; é da ordem da própria estrutura social.
Creio que devemos nos opor a propostas espontaneístas de todos os matizes:
normativizantes ou desestruturantes, voltadas só para o código ou só para o uso, etc.
Mas não é possível ser contra devaneios, sonhos e que tais em matéria de política e de
pesquisa lingüística.
A variedade lingüística “da rua” tem seu lugar, porque a diversidade enriquece a cultura
e merece respeito ao seu valor intrínseco, além de refletir a diversidade do próprio país.
Excluir a “língua da rua” ou a língua dos corredores ou da tradução, da academia, da
comunicação oficial, etc. é algo que repugna. A coexistência dessas modalidades é
importante. Empenhar-se em menosprezar ou abolir uma ou outra dentre elas é
igualmente inaceitável. Ao nosso ver, a língua das ruas e os experimentalismos
SOBRAL / Passages de Paris 2 (2005) 209–218 212
lingüísticos dos escritores, e até certos exageros acadêmicos e antiacadêmicos,
contribuem para a diversidade sem acabar com a unidade.
O Brasil é hoje uma sociedade complexa que envolve a rua e muitos outros lugares, e
creio que se precisa dar acesso a esses outros lugares lingüísticos, e da maneira mais
universal possível. Conhecer a variedade de prestígio, sem discriminar as outras, pode
ser um fator de melhoria social. Respeitar a sarjeta é bom, mas também o é tentar tirar
dela o máximo possível de pessoas (ou mesmo ir melhorando a sarjeta!). O que nos faz
repetir: o problema lingüístico não é (só) lingüístico.
Por outro lado, tudo depende da conjuntura. Senão vejamos:
1. Na Itália, em certa época, dada a diversidade lingüística, e uma situação política plena
de desorganização, a falta de unidade lingüística entre as massas favorecia interesses
escusos das classes dominantes.
Gramsci defendeu na época a unidade lingüística:: É "... racional colaborar pratica e
voluntariamente para dar uma boa acolhida a tudo que possa servir para criar uma
língua nacional comum, cuja inexistência cria atritos particularmente entre as massas
populares, em cujo seio os particularismos locais e fenômenos de uma mentalidade
estreita e provinciana são mais tenazes do que se crê". Ele não defendeu a supressão das
variedades, mas viu em sua disseminação um prejuízo para todos exceto os mandatários,
que poderia ao seu ver ser minorada por uma língua comum.
Nesse caso, a monoglossia tem de ser intransigentemente defendida.
Atualmente, na mesma Itália, em que convivem tantos e tão expressivos dialetos, há
propostas de tornar o italiano a única língua oficial, o que significa na prática reprimir
manifestações culturais as mais diversas e nivelar o país de maneira arbitrária.
Nesse caso, a heteroglossia tem de ser intransigentemente defendida.
2 Os Estados Unidos, antes do Império Americano, usaram a unificação lingüística para
se opor à política lingüística imperial da Inglaterra e para firmar sua independência.
Nesse caso, a monoglossia tem de ser intransigentemente defendida.
3 Nos idos do Império Britânico, houve um certo momento em que o governo procurou
instituir, em termos repressivos e centralizadores, uma "língua padrão" que levava
praticamente ao descarte das variedades lingüísticas, e mesmo das outras línguas do
Império.
Nesse caso, a "língua padrão" assumiu um caráter negativo, atribuindo a tudo o que dela
discrepasse um caráter inferior, desconsiderando por completo os contextos de cada
variedade.
SOBRAL / Passages de Paris 2 (2005) 209–218 213
Como disse um garoto inglês a quem se queria impor a norma em substituição à
variedade de uso doméstico: "There now. If you do meake me talk so fine as that, they'll
laef at me at hwome zoo that I can't bide there."1 E houve resistências justas e legítimas
a essa unificação descontextualizadora e discriminatória.
Nesse caso, a heteroglossia tem de ser intransigentemente defendida.
4 James Joyce se opôs à supressão da variedade irlandesa - que tinha de ser valorizada
por definir a própria identidade da Irlanda - pretendida pelo Império Britânico, tendo
produzido obras exemplares de absoluta heteroglossia, como todos sabem, chegando
mesmo a retratar o próprio processo de vir-a-ser da linguagem na própria vida diária.
Nesse caso, a heteroglossia tem de ser intransigentemente defendida.
O que temos a partir desses dados? Provas de que as questões lingüísticas também têm
seu lado conjuntural, que seus aspectos variam de acordo com a situação. Pouco
importa de onde vem a rigidez; deve-se ser pura e simplesmente contra todas as suas
modalidades. Achamos que a academia e quejandos precisam conhecer e respeitar a
sarjeta e ser conhecida e respeitada por ela. Pode-se falar "sarjetês" na sarjeta, "tradutês"
em meio a tradutores, "academês" na academia; deve-se ser a favor do acesso universal
a todas as variedades. Menosprezar ou desejar suprimir variedades, sejam elas populares
ou cultas (impopulares?) é, a par de desnecessariamente repressivo, empobrecedor do
ponto de vista da língua e da cultura, além de revelar um profundo desconhecimento da
realidade da língua, da formação de gêneros primários e secundários, etc.
III. USO, SISTEMA, LINGUAGEM
Há algumas afirmações feitas pelo colega Vagner Muniz numa intervenção na
Comunidade Virtual da Linguagem que merecem comentário2. Referindo-se a uma
1 Tradução 1 (normativa): “Era só o que faltava! Se me fizerem falar dessa maneira tão refinada, vão rir
de mim lá em casa e eu não vou poder morar lá.” Ou melhor: Tradução 2 (descritiva levemente
normativizada): “Veja só! Se você me fizer falar desse jeito fino, vão me gozar lá em casa e eu não vou
poder mais morar lá”. Ou, melhor ainda, Tradução 3 (mais próxima da realidade, para horror dos puristas, porque leva em conta o caráter oral e coloquial da “situação de produção” presente à transcrição em inglês): “Eu heim! Se você me fizé falar tão bem assim, eles vão se ri de mim lá in casa e purisso não vou podê mais morá lá.” Destaco que não há gíria aqui.
2 Transcrevo-a aqui: “O que o título tem a ver com o que segue? Nada! Alguém aqui na lista escreveu que o gerundismo é uma forma natural e previsível em função do costume de, no Português, usar-se o modo analítico em lugar do sintético (/vou escrever/ em lugar de /escreverei/).
Até aí, tudo bem. Agora, afirmar que /vou estar escrevendo/ é forma analítica de /escreverei/ ou de /vou escrever/ não me parece correto: são formas equivalentes? Não há limites para essa expansão?
Sei que à Lingüística não cabe mostrar "certos" e "errados", mas acho bastante curioso como se
encontram explicações tão rapidamente para todo e qualquer fenômeno de linguagem: busca-se a validade na coerência do sistema, mas, no fundo, justifica-se pragmaticamente pelo uso. Lembro-me de um professor de Lingüística que, ao pronunciar um neologismo, afirmou: "Se é que essa palavra existe...
SOBRAL / Passages de Paris 2 (2005) 209–218 214
afirmação segundo a qual o uso deve ser o critério exclusivo da aceitabilidade
lingüística, pergunta o professor Muniz:
1. "Não há limites para essa expansão?" Explico: do uso de formas de expressão.
e 2. "...busca-se a validade na coerência do sistema, mas, no fundo, justifica-se
pragmaticamente pelo uso."
A nosso ver, em princípio o limite existe, como em tudo o mais, só que é bastante
amplo. Esse limite é o das possibilidades expressivas da língua e depende tanto do
sistema como do uso, tanto dos falantes como de todas as instâncias que incidem sobre
o ser da língua. Se o sistema e/ou o uso não aceitam uma dada forma de expressão, ela
muitas vezes nem vem a existir ou desaparece. E muitas formas podem coexistir - vide
as variedades da língua que são usadas simultaneamente no mesmo período de tempo.
Logo, não se pode falar de linguagem sem falar ao mesmo tempo de sistema e de uso (e
as gramáticas do uso estão ficando comuns hoje). Com efeito, sem uso, o sistema não é
sistema, mas mero código; e, sem o sistema, não há uso. O significado como potência
está no sistema; o(s) sentido(s) vêm a ser no uso. Propomos pensar o sistema da
linguagem como um sistema complexo (Morin) constituído por um sistema lingüístico,
vinculado com os significados fixados, e um sistema de uso da língua, vinculado com
os sentidos que vêm a ser em situação. Isso a nosso ver contribui para evitar as
distorções decorrentes de falsas oposições entre sistema e uso, código e fala, etc.
Concordamos que "buscar a coerência no sistema" e ao mesmo tempo "justificar
pragmaticamente pelo uso" é uma incoerência. Assim como o é buscar a lógica do uso e
justificar formalmente pelo sistema. Logo, deve-se examinar o fato lingüístico tanto em
termos do sistema como do uso, tanto vendo o uso a partir do sistema (se o sistema, em
seu estado atual, comporta um dado uso ou não) como mostrando que também o sistema
se altera a partir do uso (alguém ainda usa o mais-que-perfeito, exceto em casos bem
raros, em certas sutis distinções filosóficas, por exemplo?) e, por fim, analisando as
relações complexas que aí se estabelecem entre os falantes em seus diversos contextos
interativos, sociais, históricos, etc.
Certo é que louvar o novo como valor intrínseco ou reagir com "repúdio" a ele, como
Bom... existe, tanto é que acabo de pronunciá-la.".
Estou convencido de que - a exemplo do que se discute em outros campos, como na Matemática, a partir da prova de Gödel - um sistema, dentre eles o lingüístico, não possui a validação da totalidade de seus enunciados. Digo que a coerência interna não é o suficiente e que a noção de uso deve ser repensada.
Uma passagem bíblica diz algo como "tudo é permitido, mas nem tudo convém". O que isso tem a ver
com o que estou escrevendo? Nada!
Abraços,
Vagner Muniz
SOBRAL / Passages de Paris 2 (2005) 209–218 215
tem ocorrido nas discussões hoje correntes do “gerundismo” (vou estar ligando) não nos
parecem atitudes científicas. O cientista não tem de aceitar nem rejeitar, mas de
entender e explicar, recorrendo ao que for necessário. Não se pode esquecer o sistema,
mas é preciso repensá-lo à luz do uso, ou melhor, dos usos. Do mesmo modo,
insistimos, o uso não pode deixar de ser considerado em termos do sistema, normativo,
descritivo, intuitivo, falado e escrito, formal e informal, urbano e não-urbano.
IV. INTERAÇÃO, CONTEXTO: A VIDA DA LÍNGUA NÃO ESTÁ NAS
GRAMÁTICAS
Contudo, é preciso estar atento para o fato de que, como disse Heidegger numa palestra
sobre Nietzsche:
"A vida da linguagem real consiste na multiplicidade do sentido. Relegar a
palavra animada e vigorosa à imobilidade de uma seqüência de signos unívoca,
mecanicamente programada, seria a morte da linguagem e a petrificação e
devastação do Ser."
Isso vem ao encontro da concepção de linguagem do círculo de Bakhtin.3 Pode-se ao
nosso ver afirmar que, ao falar da interação como o locus do vir-a-ser da linguagem,
Bakhtin se refere a quatro níveis, dotados de diferentes e crescentes graus de amplitude,
todos eles necessariamente constitutivos:
O nível da interação verbal concreta, do aqui e agora da presença dos interlocutores
na enunciação (claro que em sua projeção no enunciado). Esse nível é o mais “restrito”,
mas constitui, naturalmente, a base de todos os outros;
O nível do contexto imediato em que se insere a interação (lugares sociais, ethos,
formas atualizadas de interação social, etc.). Nesse nível, temos os elementos que a
interação “convoca” diretamente e que remetem ao nível seguinte;
O nível do contexto social propriamente dito, aquele que determina em termos
conjunturais, culturais, e mesmo raciais, o modo de ser da interação; e, por fim,
O nível do horizonte social e histórico mais amplo, que abrange a cultura em geral,
os grandes períodos da história, o Zeitgeist, etc., e que é incluído nas considerações que
Bakhtin faz sobre a inexistência de um sentido primeiro e de um sentido derradeiro. Se
pode haver discurso fundador, nem por isso há sentido fundador: a gênese dos discursos
é o locus da gênese dos sentidos e não vice-versa.
À luz disso, justifica-se a nossa idéia de que o sistema da linguagem é, mesmo em sua
forma normativa, um conjunto de potencialidades expressivas que só o uso atualiza; se
ele modifica os usos ou sobre eles incide, estes o alteram igualmente. O uso depende do
contexto, mas o sistema também tem elementos contextuais, não em sua coerência por
3 Como se sabe, “Vem ao encontro” difere de “vem de encontro”. Na prática, esses usos se confundem em
textos de pessoas das “melhores famílias”, e não obstante o entendimento do que se pretende dizer
acontece quase sempre.
SOBRAL / Passages de Paris 2 (2005) 209–218 216
assim dizer originária, mas em suas formas aceitas num dado momento da sociedade.
Por outro lado, o uso sofre a incidência do sistema dominante num dado momento
histórico numa dada sociedade.
O falante trabalha com o normativo, com o descritivo, com o impositivo, o intuitivo, o
vivencial - presente e passado, com a antecipação do futuro, as influências de outras
línguas, linguagens, variedades lingüísticas, etc., o que cedo ou tarde, de alguma forma,
se reflete no sistema da linguagem - o sentido é a conspiração de tudo.
Ainda em sua intervenção, Vagner Muniz declara:
3. "Digo que a coerência interna não é o suficiente e que a noção de uso deve ser
repensada. Uma passagem bíblica diz algo como "tudo é permitido, mas nem
tudo convém".
Perfeito dizer que a coerência interna não basta e que a noção de uso deve ser
repensada. Acrescentamos: devemos ainda, como dissemos, modificar a noção de
sistema e mesmo de coerência interna para abranger o uso. A linguagem, para dizer de
outra maneira, é um sistema complexo que soma sistema potencial (normas,
unificações, unidades) e sistema atual (os usos, cristalizados ou novos, as variedades); e
nenhum desses sistemas se basta, dado que se inter-relacionam um com o outro. Temos
de pensar nos dois e em suas relações - mútuas e com outros sistemas.
Além disso, alega o colega:
4. "O sistema lingüístico não possui a validação da totalidade de seus
enunciados."
Trata-se de uma feliz afirmação, que fornece elementos para negar a absolutização do
sistema entendido como código e como uma caixa preta que, mais do que determina,
contém todos os usos possíveis, em vez de combinatórias possíveis de elementos. E é
esse justamente nosso ponto de vista: não é o sistema lingüístico, e muito menos a
gramática, que cria sentido; é a linguagem em uso que gera sentidos, e muitos deles vêm
a alterar o próprio sistema (e a gramática) de significados cristalizados, criando novas
cristalizações.
V. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com base nesses elementos, propomos que o sistema da linguagem seja redefinido
como um sistema histórico complexo formado pela relação tensa e tensiva entre feixes
de potencialidades expressivas (sistema lingüístico) e de atualidades expressas ou
exprimíveis (sistema de usos). Essa relação dinâmica permite validar, de modo não
apriorístico, e portanto a partir de suas combinatórias entre os aspectos formais (o plano
da repetibilidade) e os aspectos contextuais, enunciados nunca antes produzidos (o
SOBRAL / Passages de Paris 2 (2005) 209–218 217
plano de irrepetibilidade) — e, no entanto, tantas vezes produzidos com outras
expressões, e que até antecipam sentidos ainda por vir.
Quanto à parte do enunciado de Vagner Muniz que se refere ao que convém no tocante
à língua, cumpre perguntar, na nossa opinião: quem determina o que convém? O
sistema potencial? O sistema atual? Têm eles poder para tanto? Não serão – afora as
políticas (e polícias) lingüísticas – as comunidades de fala, os intercâmbios verbais, a
correlação de forças centrífugas e centrípetas em ação da língua?
O que não quer dizer que tudo seja sempre aceitável em toda parte para tudo. Mas, para
saber o que é ou não aceitável, cabe perguntar: aceitável para quem? E perguntar o que
convém implica “convém a quem (quando, onde, como)”? Eis-nos de volta ao ponto de
partida: as possibilidades do sistema lingüístico e as atualidades do sistema de usos
dependem dos mecanismos de controle da circulação das falas, dos discursos. Assim,
por trás de todo enunciado, dito aceitável ou não, há um sujeito (sujeitos) que têm um
dado lugar no mundo, atribuído ou conquistado, imposto ou reconhecido.
Porque a linguagem e o mundo não existem num vácuo, como coisas em si, mas como
coisas para alguém(ens). E o cientista existe nesse mundo de coisas "interessadas", ou
melhor, investidas de interesse. "Pois tudo veio a ser; não há fatos eternos nem verdades
absolutas" — o que se aplica inclusive a essa afirmação de Nietzsche, que também
pensou a linguagem e lhe deu usos "estarrecedores”, ao menos aos olhos de uma
concepção estática do que seriam o código e/ou o(s) uso(s) lingüístico(s).
Em suma, a nosso ver o sistema da linguagem já inclui por definição tanto o sistema
lingüístico enquanto possibilidade como o uso lingüístico enquanto atualidade.
Absolutizar um ou o outro não faz avançar a compreensão de coisa alguma. Logo,
consideremos a coerência interna e a coerência externa em termos do caráter
constitutivo da linguagem que tem a relação entre essas coerências. A linguagem não é
uma álgebra, mas também não é um amontoado caótico de seqüências verbais, uma
espécie de caos onde anything goes.
Um professor pode dizer “menas” no bar sem ser irônico, e não poderá ser “condenado”
por isso. Mas se o disser numa entrevista, falando sobre sua condição de professor,
estará exposto, não a “condenação”, mas à “acusação” de uso impróprio. Isso explica
porque os que aceitam a realidade dinâmica da língua escrevem artigos acadêmicos
segundo a norma: é adequado fazê-lo. Assim, em vez de “certo“ e “errado”, deve-se
falar de “adequado” e “não adequado”. Porque para cada realidade da língua há uma
realidade contextual que não se pode deixar de considerar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Alleanza Libera Europea, 2000. Dichiarazione di Bruxelles 9/11/2000. [Online]
Disponível em: http://utenti.lycos.it/alleanzalibera/aleit.htm. [Acessado: 09 Abr 2002]
SOBRAL / Passages de Paris 2 (2005) 209–218 218
BAGNO, M., 2001. Carta ao Editor da revista Veja. [Online] Disponível em:
http://www.marcosbagno.com.br/conteudo/forum/carta.htm. [Acessado: 09 Abr 2002.]
BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. Tradução: M. E. Galvão G. Pereira. São
Paulo: Martins Fontes, 1997.
-----., 1993. Questões de Literatura e de Estética (A Teoria do Romance). Tr. Aurora
Fornoni Bernadini et al.. São Paulo: Unesp/Hucitec.
-----VOLOSHINOV, Valentin N. Discurso na Vida e Discurso na Arte (sobre a poética
sociológica. (Tradução para o português por Carlos Alberto Faraco e Cristovão Tezza,
para uso didático, com base na tradução inglesa de I. R. Titunik (“Discourse in life and
discourse in art – concerning sociological poetics”), publicada em V. N. Voloshinov,
Freudism, New York: Academic Press, 1976), s/d.
BRAIT, B., 2001. Alteridade, dialogismo, heterogeneidade: nem sempre o outro é o
mesmo. In: Brait, B., 2001. Estudos Enunciativos no Brasil – Histórias e Perspectivas.
São Paulo: Pontes/Fapesp, pp. 07-25.
CROWLEY, T., 1989. Bakhtin and the History of Language. In: Hirschkop, K. e
Shepherd, D. (orgs.),1989. Bakhtin and Cultural Theory. Manchester, New York:
Manchester University Press, pp. 68-90.
FOUCAULT, M. (1992). Michel Foucault – o que é um autor? 3a. ed., Lisboa.
Veja/Passagens, Trad. António F. Cascais e Eduardo Cordeiro.
— — (1972). The Archaeology of Knowledge and the Discourse on Language, New
York, Pantheon. Trad, A. M. Sheridau Smith.
HEIDEGGER, Martin. Being and Time. Tradução: J. Macquarrie e E. Robinson.
Oxford: Oxford University Press, 1962.
-----, 1979. The Will to Power as Art. Tr. D. F. Krell. New York: Harper and Row.
HOLQUIST, M.,1990. Bakhtin and His World. London, New York: Routledge. Cap. 4,
pp. 67-106.
INWOOD, Michael. Heidegger. Oxford: Oxford University Press: 1997. (Em vias de
publicação por Edições Loyola, tradução de Adail Ubirajara Sobral.)
MORIN, E. et al., 1994. Carta de Transdisciplinaridade. [Online]. Disponível em:
http://www.cetrans.futuro.usp.br/cartadatransport.html. [Acessado: 09 Abr 2002.]
MUNIZ, Vagner. Mensagem “Neo-liberalismo lingüistico”. Disponível em:
(Comunidade Virtual da Linguagem) http://groups.yahoo.com/group/CVL.
NIETZSCHE, F., 1978. Nietzsche. Os Pensadores. Sel. de Textos: Gérard Lebrun. Tr. E
notas: Rubens Rodrigues Torres Filho. Posfácio: Antônio Cândido. São Paulo: Abril
Cultural.
POSSENTI, S., 2001. Por Que (Não) Ensinar Gramática. Campinas: ALB/Mercado de
Letras.
SOBRAL, A.U., Autor, Ethos, Estilo: Breves Considerações. Inédito.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário